Carlos Massari (e-mail), Leitor do Adoro Cinema - Nota 8:

"As nossas últimas lembranças quanto a filmes de guerra são todas pavorosas. "Além da Linha Vermelha" trazia uma boa premissa, mas se perdia no excesso de filosofia desnecessária, "O Resgate do Soldado Ryan" começa com uma sequência antológica e depois fica quase inassistível. E, mais recentemente, "Pearl Harbor", massacrado por todos graças à sua pieguice ao inserir um romance desnecessário na trama.

Com uma campanha de marketing bem inferior frente às apresentadas nos filmes citados anteriormente, "Círculo de Fogo" funciona com total eficiência, unindo as principais características das últimas produções bélicas. Traz sequências antológicas de batalhas e, principalmente, de perseguições entre o major alemão e o atirador russo. Tem um poder de filosofia que não fica exagerado, sempre unindo as fortes cenas com frases impactantes, e também apresenta um triângulo amoroso que funciona com classe sem ter a menor dose de pieguice, totalmente pelo contrário, com emoção. Todas esses "detalhes" o transformam em belíssimo filme, categórico naquilo que deseja mostrar.

Uma coisa que ficou absurda é o título nacional, que não tem a menor lógica. A história nos mostra Vassili Zaitsev (Jude Law), um atirador russo que alcançou a fama pelo fato de ser amigo de Danilov (Joseph Feiness), um nome forte na imprensa local. O cenário é Stalingardo, onde a guerra poderia se decidir a favor da Alemanha nazista. Para enfrentar a resistência russa, Hitler envia ao local o Major Konig (Ed Harris) que passa a perseguir Vassili, sabendo que se conseguisse capturá-lo seria a vitória, já que este fato desencorajaria todos os outros recrutas. Mas, para complicar a situação dos comunistas, Vassili e Danilov se apaixonam por uma mesma recruta, a bela Tania (Rachel Weisz) e então passam a rivalizar para conseguir conquistar a amada.

O roteiro do filme consegue dosar o romance e a trama de guerra, sem deixar triunfos de um sobre o outro. Assim, temos uma boa coerência por durante toda a projeção, que ainda contam com a ajuda de várias reviravoltas na parte da traição do exército soviético. Tudo isso se une à ótima direção do francês Jean-Jacques Annaud, que deu o clima europeu ao filme. Os únicos defeitos se encontram no meio do filme, quando ele fica arrastado nas disputas entre o major e Vassili, mas não é nada que prejudique. Talvez o clima europeu citado justifique o fato de ter afundado nas bilheterias americanas: o filme é falado em inglês por atores americanos, mas o clima de direção, de ordenação dos fatos e de exploração da trama são claramente europeus, tirando a falta de proporção dos filmes citados no início dessa crítica, e também abrindo espaço para ótimas interpretações de todo o elenco.

Elenco que é repleto de astros: Jude Law, que encarnou o Gigolo Joe em "A.I." faz uma atuação soberba, tensa e deixando claro que Vassili (que realmente existiu e foi um dos heróis da Segunda Guerra) detestava aquilo que fazia, uma coisa que outros filmes, como um pseudo-épico vencedor do Oscar, fazem totalmente ao contrário. Ed Harris é um ator genial e pega um personagem abaixo daquilo que pode oferecer, não tendo o menor problema para sua atuação. Há uma pequena ponta de Bob Hoskins, que já impressiona terrivelmente. Quem está perdido em cena é Joseph Fienes, não dá a emoção necessária a Danilov. Rachel Weisz começa mal, mas logo se acerta, conseguindo uma belíssima interpretação, responsável por grande parte do clima tenso presente na película.

"Círculo de Fogo" BORDER="0" SCROLLING="no" FRAMEBORDER="0"> é um ótimo filme, ainda conta com uma primorosa parte técnica, como fotografia e montagem, e a ilustração nos créditos finais deixam um ar de crueldade na guerra, que o filme insiste em deplorar por durante toda a projeção. Em meio a tanta pretensão comercial dos filmes bélicos dos últimos tempos, esta é sem dúvidas a melhor opção, sendo útil e emocionante. Não deve ter chances no Oscar pelo seu clima europeu. Fazer o que? Oscar é prêmio comercial e injusto mesmo."