Nano Souza (e-mail), Leitor do Adoro Cinema - Nota 8:

"Nem só de obras primas vive Hollywood. E, aliás, se todos os filmes bons fossem obra-primas, chamar uma película de obra-prima seria cair no lugar comum, não é mesmo? Mas graças a Deus podemos guardar nosso fôlego para sentirmos essas obras de arte com grande empolgação e atenção no momento certo enquanto nos deleitamos e nos divertirmos (sim, divertir, o cinema também serve pra isso, sabiam?) com películas que não tem outro fim senão um sadio, competente e inteligente entretenimento. O que é o caso de DO INferno, pelicula dos irmãos Hughes, baseados num HQ homonima de um dos mestres da área, Alan Moore.
Certo, Do Inferno poderia ter sido uma obra-prima, tinha potencial, mas tantos filmes considerados (e realmente) ruins não poderiam o mesmo? Então, meus caros, nos contentemos com aquilo que já é o bastante nesses tempos de Harry Porter e Buffys: Do Inferno é um bom filme, um ótimo filme, e isto em si já é merito suficiente.


Dos quadrinhos, os irmãos Hughes realmente tiraram apenas o título e o clima pesado, decadente, miserável que permeia todo enredo. Mas seu objetivo primeiro, está claro desde o início, era fazer um trailer de suspense. Objetivo que dá com os burros na agua a partir da metade do filme, quando revelada a identidade do assassino, como forma de seguir mais fielmente as premissas básicas da história original de Alan Moore. O problema é que nas HQs todos sabem desde o início que o Dr. William Gull é Jack, acompanhamos inclusive os assassinatos e suas premeditações através da ótica dele. Apresentá-lo no meio do enredo, no filme, não é o suficiente para que o telespectador (que não leu Do INFERNO) se familiarize com ele, entenda suas deturpadas motivações e até (como aconteceu comigo na leitura da obra) simpatize com o bom doutor.

Mas fora essa falha drástica de roteiro, Do Inferno cumpre bem as expectativas, condensa o suspense a uma certa crítica social, concentra-se em alguns (embora de forma tímida) perfis psicológicos, e conta com excelentes atuações, principalmente de Iam Holm e Johnny Deep. Não é de admirar que os velhos fãs da sétima arte não gostem do visual de Do Inferno: é um filme com a cara dos anos 90, ou melhor, da primeira década do século XXI. Ele tem uma identidade fortemente ligada a nossa época, e não é que essa decadencia, essa inquietação, essa expectativa também estavam presentes na Londres do final do século XIX? Talvez por isso os jovens se ajustem tanto com as imagens e idéias transmitidas em Do Inferno. Vivemos talvez períodos semelhantes, onde a prosperidade esconde a exclusão social, onde a paz esconde conflitos endemicos, onde altas autoridades escondem facinoras sem escrupulos e onde respeitosas instituições não passam de joguetes manipulados por conspirações de grupos inescrupulosos. Como disse o próprio Dr. Gull, nas páginas de Do Inferno, é no Inferno, e aí que nós vivemos. E é por entender as palavras do bom doutor, que os diretores acertam em cheio.

Do Inferno é uma ficção, não a obra definitiva sobre Jack. Nunca pretendeu isso, como poderia pretender? Poderiamos um dia, após tantos anos, realmente descobrir quem foi Jack? Nos sobra então dissecar a época, o espírito da época, tal como Alan Moore e os irmãos Hughes tentaram dissecar. Nada mais que um versão, condizente com nossa época, mas não definitiva - porque outras épocas e geraões virão, sobre vidas miseráveis que somente passam a valer algo quando vítimas de uma morte espetacular envolvida em mistério. Jack causava espanto e terror no século XIX. Hoje não assusta mais ninguém, porque há Jacks aparecendo todos os dias, em todas as grandes cidades do mundo, e as mortes espetaculares rendem, quando muito, capa de jornal para alguns dias. E, acredito, esse seja o maior e verdadeiro terror."