Henrique Miura, Leitor do Adoro Cinema - Nota 0:
"Com o cinema nacional cada vez mais subindo degraus,
é mais comum agora sermos servidos com produções variadas
e com uma produção caprichosa. Em um passado muito recente, você
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precisava decifrar alguns diálogos, por causa do precário som
(exemplo maior disso, é o excelente "O Bicho de 7 Cabeças").
Agora, chegamos em um nível de perfeição. Em "Deus
é Brasileiro", temos um som perfeito - são entendíveis
todos os diálogos e os ruidos chatos são exterminados de uma vez.
Mesmo assim, Cacá Diegues - o mesmo da catastrofe intitulada "Orfeu"
- realizou a pior comédia nacional dos últimos tempos (em tempos
de "Avassaladoras" e "Eu, Tu, Eles", um demérito
dos piores), quase superando a ruindade de seu filme antecessor. O ponto de
partida do filme é interessante: O todo poderoso Deus está estressado
e quer tirar férias. Para isso, ele desce ao Brasil para encontrar um
santo, para substitui-lo por tempo indeterminado. Dessa premissa que poderia
render caminhos dos mais interessantes, acompanhamos um road-movie pelo Brasil
(eles caminham o Brasil inteiro com aquela idéia à lá Turma
da Mônica - "Ele não está mais aqui, foi para..."),
com Deus sendo guiado por Taoca, um jovem endividado que o ensina as regras
do mundo capitalista. No meio de tudo isso, entra na história Madá,
uma garota que quer ir para São Paulo, seguir o caminho feito por sua
mãe. "Deus é Brasileiro" acaba você não
sabe qual é a idéia do filme, que diabos ele quer mostrar. É
também "comédia de uma piada só". Durante toda
projeção, a tecla é sempre a mesma: Trocadilhos com Deus;
o único momento de originalidade de piada, é quando Deus explica
que não costuma realizar milagres, muitas vezes é coincidência.
No começo, você até imagina uma boa comédia, mas
quando você percebe que as piadas estão se repetindo, chega o esgotamento
e a impaciência, que tornam o filme insuportável, aquela comédia
que não faz rir, aquela idéia que fica mais escura que as dos
filmes do David Lynch. Ao final fica aquela dúvida: o que "Deus
é Brasileiro" quis passar, afinal das contas? A beleza do Brasil?
A pobreza do Brasil? O Brasil? As locações bonitas e totalmente
naturais (fotografadas por Affonso Beato), realmente impressionam pela beleza
(mas se beleza de locações fosse algum mérito, "A
Praia" seria um excelente filme). Em um momento, aparece nas miseráveis
ruas brasileiras, um casal vendendo seus filhos - na, talvez, única enfatização
da pobreza que atinge algumas regiões do país. Então, podemos
concluir que "Deus é Brasileiro" seria um retrato honesto do
Brasil? Uma apresentação especial do Brasil para Deus? Mas, Deus
não é Brasil e Brasil não é Mundo. Ou seja, seria
talvez uma demonstração de que o Brasil é multi-cultural
e pode mostrar a realidade do mundo inteiro? Esqueça tudo isso. "Deus
é Brasileiro" não tem intenção nenhuma, não
tem sentido algum. Apenas é uma colagem de situações que
deveriam ser engraçadas, com Deus se deparando com suas crias. Um Deus,
aliás, todo arrogante, grosseiro e antipático. Essas características
deveriam fazer dela a peça chave de graça no filme, mas é
exatamente o que o torna mais chato. Deus em alguns momentos pouco parece se
importar pelo mundo (ele quer mesmo é ir para as estrelas - hunf), em
outros, faz anotações para as melhorias. Pois é, talvez
"Deus é Brasileiro" seja um pretensioso filme que queira mostrar
o que deveria ser feito para o Mundo se tornar perfeito - com Deus anotando
didaticamente os defeitos do mundo. Muitas pessoas sem fé ou ateus (e
as vezes, até mesmo alguns católicos na desgraça), costumam
indagar sobre a existência de Deus. Se ele realmente existe, porque deixa
acontecer tantas guerras, existir tanta fome e miséria, existir tanto
preconceito racial (hoje, dividem vagas em faculdade para negros - existe preconceito
maior que esse?), tanta intolerancia, tanta injustiça, tornando o mundo
um lugar cruel, desesperançado. Sim, "Deus é Brasileiro"
com diálogos engraçadinhos tenta explicar essa dúvida,
mas é simplista ao máximo. É basicamente: Eu criei o mundo,
as pessoas é que fazem o mundo, e elas fazem todos esses defeitos. Ah
tá, mas poderia existir um pouco mais de criatividade, não? No
elenco, a melhor peça é uma imitação. Wagner Moura,
que interpreta o guia-turístico improvisado Taoca, para dar vida ao personagem
faz um misto de João Grilo e Chicó, os protagonistas de "O
Auto da Compadecida", de Guel Arraes, interpretados respectivamente por
Matheus Natchergaele e Selton Mello. É ele quem consegue arrancar algumas
risadas (raríssimas), mas só consegue se destacar assim, por causa
da ruindade do resto do elenco. Paloma Duarte é péssima, seu estilo
de garota sonhadora, rebelde e convicta que deveria ser apaixonante, se torna
dispensável - você fica conômetrando o tempo para ela sair
de cena. Stepan Nercessian é outro perdido em cena, parece estar na novela
das oito. E Antônio Fagundes, que é um dos melhores atores nacionais
veteranos (ao lado de Tony Ramos), está perdido na pele de Deus. Sua
veia cômica está deslocada nesse filme, seu jeitão bruto
e grosseiro é insuportável. Além disso, temos as ingloriosas
participações especiais: Toni Garrido (o Orfeu de Diegues, aqui
vivendo um anjo do portal), e Susana Werner, a ex do Ronaldinho (fazendo uma
apresentadora de Tv ao melhor estilo Xuxa), perdendo tempo, sendo apenas o pavio
dessa bomba. "Deus é Brasileiro" também deixa uma dúvida
que está incomodando muita gente, inclusive eu: Se Deus é todo
poderoso, porque ele não aparece aonde está o bendito Santo? O
filme a todo momento se desvia dessa explicação. E mais, porque
Deus precisa daquele farol-balsa ou sabe-se lá o que é aquilo,
para se "transportar" para seu mundo? E o que um pé de pitanga
tem a ver com tudo isso? Com esse sucesso de "Deus é Brasileiro"
(está lotando salas, e conseguiu um feito que nem mesmo no fenômeno
"Cidade de Deus" conseguiu: o topo do Top10 Brasil), fica aquela sensação
que brasileiro vai mal ao cinema. Você pega para ver quais são
os grandes sucessos do cinema nacional ultimamente, e encontra apenas suas grandes
obras: "Cidade de Deus" e "O Auto da Compadecida",- o resto
é o resto mesmo, Xuxa. Agora, certamente "Deus é Brasileiro"
entrará para o ranking dos mais assistidos depois da retomada. Na saida
do cinema, fiquei com um desanimo, imaginando porque o cinema nacional ainda
em firmação, aparece com uma bomba desse tamanho. Esse desgosto
foi passado rapidamente, pois em seguida peguei uma sessão de "Edifício
Master", e sai com um sorriso do tamanho do mundo - um sorriso que nem
Deus conseguiu tirar.."