Mário Gomes Jr., Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:

"CINEMA: DA GLÓRIA À LOUCURA

Através de uma intensa carga dramática e ambientado em um funesto clima noir, “Crepúsculo dos Deuses” (50) aborda o sepultamento do cinema mudo norte-americano de outrora, expondo o então completo ostracismo dos ídolos daquela pioneira fase cinematográfica, além de mostrar as diferentes faces dos dilemas que acometem os bastidores da sétima arte. O cinema é focado de maneira peculiar em “Crepúsculo dos Deuses”, que retrata a dura e cruel realidade das decepções humanas ocasionadas por esta “diversão”. Através desta obra, o genial diretor Billy Wilder (1908-2002) presta uma homenagem a todos aqueles que sofreram tais situações, além de alertar os novos profissionais da carreira cinematográfica, em relação às pesadas conseqüências que os mesmos podem estar sujeitos ao se envolverem nesse “fantástico” mundo. No filme os dramas existenciais dos personagens, que vivem ou viveram dentro ou fora das telas, são expressos diversificadamente: através do aspirante a roteirista – e dublê de gigolô – Joe Gillis (William Holden, 1918-1981) observa-se o desespero e a desilusão de quem não consegue se impor no famigerado mundo do cinema. Na pele da grande estrela aposentada Norma Desmond (Gloria Swanson, 1899-1983) percebe-se a solidão e a eterna angústia de quem um dia provou a fama e hoje vive no esquecimento. Pelo mordomo e ex-diretor Max Von Mayerling (Erich Von Stroheim, 1885-1957) vê-se a imensa culpa de quem sacrificou toda uma vida alheia, além da própria; e com a promissora roteirista Betty Schaefer (Nancy Olson, 1928) sente-se a frustração de um o amor castrado pela ambição e insegurança. Ironicamente, a grande estrela do cinema mudo, Gloria Swanson, mesmo dando um show de interpretação neste papel que simboliza o clímax da sua carreira, depois deste filme, não conseguiu mais impulsioná-la, talvez por não se adaptar às novas técnicas de filmagem e expressão. A atriz seguiu o seu próprio crepúsculo a partir de então, nunca mais voltando a sentir o prestígio do sucesso, só protagonizando filmes medíocres até a sua morte. Swanson é responsável pela antológica cena de grande impacto ao final do filme, quando a sua personagem Norma Desmond, cercada pela polícia, transporta-se para um mundo imaginário – o qual tanto sonhava em regressar, tornando a ser a estrela glaumorosa dos tempos áureos do cinema mudo – e desce encenando pela escadaria da sua mansão em direção aos seus adoradores, que na verdade eram curiosos e famigerados jornalistas e fotógrafos ávidos por notícias “quentes”. Ao longo da trama, além de Gloria Swanson, outros grandes nomes da era muda têm participações especiais, como uma espécie de tributo a esta fase do cinema. Dentre eles estão o grande diretor de épicos Cecil B. DeMille (1881-1959); a atriz sueca Anna Q. Nilsson (1888-1974); o cômico Buster Keaton (1895-1966); a colunista Hedda Hopper (1885-1966) – responsável pelo apogeu e queda de muitos astros em função da sua língua afiada – e o grande ator e diretor alemão Erich Von Stroheim como o fiel escudeiro da estrela ofuscada Desmond. Mesmo valendo-se do mistério, dos cenários sombrios e da investigação policial, ingredientes típicos do filme noir, “Crepúsculo dos Deuses” destaca-se dos demais filmes desse gênero por possuir um denso conteúdo emotivo-psicológico – extraído das marcantes atuações de cada um dos seus quatro protagonistas principais – enfatizado ainda mais por uma carregada trilha sonora que inspira morbidez. A qualidade singular deste filme pode ser comprovada por suas três premiações com o Oscar, nas categorias de direção de arte, trilha sonora e roteiro, além das indicações por mais oito categorias: filme, diretor (Wilder), ator (Holden), atriz (Swanson), ator coadjuvante (Stroheim), atriz coadjuvante (Olson), edição e fotografia em P&B. Falecido em 2002 aos 95 anos, o austríaco/polonês Billy Wilder é conhecido como um dos maiores diretores de clássicos cinematográficos, dentre as suas grandes obras destacam-se: “Sabrina” (54); “Testemunha de Acusação” (57); “Quanto Mais Quente Melhor” (59); “Se Meu Apartamento Falasse” (60) e “Irma La Douce” (63). É inevitável não ser arrebatado pela sensação de desilusão para com o mundo do cinema, após se assistir a “Crepúsculos dos Deuses”, e a reação a este sentimento está em atitudes como a de Norma Desmond, que jamais reconheceria seu próprio ostracismo, usando como escape a fantasia ou, melhor dizendo, a loucura, como se percebe nas suas próprias palavras: “Estrelas brilham para a sempre, é por isso que são chamadas assim”."
errado