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"Tudo caminharia melhor se de imediato soasse uma campainha e uns dissessem aos outros com honestidade o que fizeram, como vivem, como amaram. O ocultar das coisas é que as faz corromper-se...". Esta frase, escrita há oito décadas atrás por John dos Passos nesta genial novela que é "Manhattan transfer", reflete de certo modo o tema que resume o novo filme de Patrice Lecone, "Confidências Muito Íntimas", uma volta à sua contínua análise sobre as relações entre homem e mulher, o assunto que, direta ou indiretamente, caracteriza seu cinema. "Um homem meio esquisito", "O marido da cabeleireira", "A dança dos desejos", "O perfume de Yvonne", "A Garota da Ponte", "A viúva de Saint-Pierre", Leconte observa e defende os casais enamorados. O faz desde um ponto de vista romântico, de um insólito e extemporâneo romantismo sublimado pelo tom tragicômico e também fatalista que sabe bem utilizar, o que o leva a fazer troça das paqueras e diminuir a força das infidelidades conjugais: Miou-Miou agarrando-se com um taxista apenas para causar ciúmes em seu marido em "A dança dos desejos"; Vanessa Paradis fazendo o mesmo com um contorcionista sobre a cauda de um piano em "A Garota da Ponte"; Anne Brochet, ex-mulher do protagonista de "Confidências Muito Íntimas", saindo com um ridículo proprietário de uma academia de ginástica. Para Leconte, a formação de um casal é uma necessidade em parte transcendente e em parte pragmática, dado que responde a necessidade de homens e mulheres de amar e, também, fugir à solidão. Assim, seu cinema se encontra cheio de homens - sobretudo deles: uma vez que sua perspectiva é sempre masculina - e de mulheres envolvidos em relações desesperadas, de sentimentos exagerados que não estranhamente provocam mais dor do que conforto. Em suma, de homens e mulheres muito diferentes entre si, que buscam apenas combater a solidão e que fazem de suas relações uma última esperança de vencê-la. Vejamos por exemplo, "Confidências Muito Íntimas" ou o que aconteceria se uma mulher cujo casamento está em crise se enganasse de porta ao procurar um psiquiatra e acabasse por contar seus segredos mais íntimos a um consultor fiscal? O filme está calcado no encontro fortuito de dois conhecidos e joga com a fascinação que provoca ser partícipe da intimidade de outro, na mesma linha de "Uma relação pornográfica"(2000), de Frédéric Fonteyne. Anna (Sandrine Bonnaire) está com poucos anos de casada, porém sua união não funciona e busca a ajuda de um especialista. William (Fabrice Luchini) é consultor fiscal porém tem um divã e um livro de psicologia em seu escritório. Ela se engana de posta, e ele, cativado pelo que está escutando, não se atreve a desfazer o equívoco. Com este insinuante começo - ainda que ameaçado de inverossímil, que Leconte trata de contrabalançar com uma inspirada, uma vez mais, direção de atores - e em um cenário quase único - o escritório e domicílio pessoal do protagonista - constrói Leconte detalhe a detalhe, frase a frase, olhar a olhar, silêncio a silêncio, uma nova reflexão sobre a dureza fria e cinzenta da solidão e a dificuldade de abordar a vida a partir dela. E também sobre a necessidade e dificuldade de trapacea-la, uma vez que não é simples o encontro entre homem e mulher. Muito mais difícil resulta abrir-se sinceramente para alguém, mais complexo administrar segredos, manias, angústias, sonhos. Com seus instrumentos habituais - a sugestão erótica, os personagens desesperados, os jogos amorosos, a manipulação que no amor exerce muitas vezes a mulher sobre o homem, a linguagem direta em assuntos sexuais, as relações platônicas - volta Leconte a apostar no amor, no romance, contra todo prognóstico contrário que nos sugere o encontro entre pessoas completamente antagônicas e extremamente carentes. A estranha porém aberta relação que surge entre estes falsos paciente e médico permite a Leconte e seu roteirista, Jerome Tonnerre, conectar com a idéia de Dos Passos de que a honestidade nas relações faria a vida menos difícil. Com sua terapia, os protagonistas começam a ver as coisas com mais clareza, conseguem dar sentido a confusão em que vivem, buscando ver a realidade através de um enfoque transparente e não borrado de temores, rotinas doentias e perguntas sem resposta. Indo mais além, o filme sugere uma reflexão sobre a alienação a que a sociedade de hoje submete seus membros, através de suas mentiras, ilusões, suas promessas de sonhos impossíveis, de felicidade imediata e que como bem se sabe, desgastam a médio prazo (não é à-toa a quantidade de vezes que se menciona a palavra divórcio). Com tudo isto Leconte consegue envolver de novo o espectador, porém não até o ponto que ele espera e que consegue em muitas outras de suas fitas. Não termina de criar a atmosfera inquietante que aponta no princípio nem de abastecer em sua justa medida a ambigüidade excitante e desassossegada que pretende o relato; acaba por não extrair todo o partido nem da sugestão erótica nem da intriga. O filme, uma vez superada a surpresa do argumento, discorre por caminhos, se não de todo previsíveis, ao menos pouco surpreendentes, e aquela ameaça de inverossimilhança que aparecia no início, e que se mantém à espreita durante todo o filme, que se apetece em muitos aspectos apenas alinhavado por um roteiro quem sabe não de todo acabado, explode no desenlace, que, ainda que coerente com o pensamento de Leconte, acaba por espelhar o caráter um tanto conservador de sua nova e interessante proposta. |
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Filme bem interessante, onde a mentira torna-se verdade, o analisado em analista, Sandrine Bonnaire está perfeita no papel de mitômana, consegue mudar o destino de quase todos os personagens na trama, mesmo os coadjuvantes. História séria, remete ao riso, pela leveza. O roteiro e argumento mostram a realidade francesa, onde ninguém se leva muito a sério. Mesmo o cornudo-mór, Gilbert Melki não faz drama com sua patologia. O meu se não com o filme, foi a escolha de Fabrice Luchini para o papel de analista tributário; seu constante olhar assustado, torna-se inquietante; não relaxa um segundo sequer,,, não conheço um homem assim na vida real. O diretor extrapolou ao colocar o personagem de terno e gravata trabalhando só em pleno domingo... idiossincrásico. Contudo, vale conferir, como alguém consegue trazer de volta a vida animal um ser em estado vegetal; e também mostrar a porta de saída a alguém que se imaginava no pleno domínio ou posse do outro,,, pura gestalt: Anne Brochet manipulando em estrada firme, caminhando em uma fina camada de gêlo. Reflexivo e divertido ao mesmo tempo. |
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Ao mesmo tempo elogio e deboche, o filme é engenhoso ao abordar a psicanálise como forma de se relacionar amorosamente. Peca pela tentativa de inserir elementos de filme "noir" onde não caberiam, aparentemente uma concessão ao grande público. Merecia uma abordagem radicalmente intimista,mas mesmo assim brilha em alguns momentos pela sutileza, principalmente na cena final. |
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Maravilhoso. algm sabe como baixá-lo? |
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