Marco Antônio Dassori (e-mail), Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:

"O filme de David Fincher, "Clube da Luta" (Fight Club), trata de dois assuntos inquietantes e atuais: a solidão - e mesmo a crise existencial, causada pela alienação consumista - e o resgate de um modelo masculino possível, em face ao "crepúsculo BORDER="0" SCROLLING="no" FRAMEBORDER="0"> do macho".

Numa sociedade competitiva e predadora como a norte-americana, dividida entre "winners" (vencedores) e "losers" (perdedores) - e, por extensão globalitária, como a de certos países ditos ocidentais também - 'Clube da Luta" chega a parecer uma heresia. Ele subverte a lógica do sistema ao afirmar que o importante não é bater, mas sim apanhar. Porque ao "baixar a guarda", abrindo mão do conforto e da segurança, o indivíduo encontraria a verdadeira "liberdade". O consumo, antes visto como elemento de identidade e libertação - "algo capaz de me definir como pessoa", segundo Jack - é percebido aqui como algo que escraviza e despersonaliza. É como Tyler, a certo momento e em tom jocoso, diz diretamente à platéia: "Vocês não são os seus aparelhos eletrônicos, nem as suas roupas da moda. Vocês não são nada".
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Ao preencher o vácuo existencial, antes ocupado pelas ideologias e utopias políticas que prometiam o paraíso na terra num futuro incerto, o consumismo - comprometido com a satisfação imediata - e o individualismo, isolaram o homem, destruindo a idéia de comunidade. O Clube da Luta vem ao encontro desse anseio, pois une os homens no resgate dessa comunidade. Num primeiro momento, em torno do frenesi de nada temer e estar "vivo" - talvez o mesmo tipo de "coragem" compartilhada pelos membros de certas torcidas organizadas de futebol. E em seguida, com a criação do "Projeto Caos", em prol de errado um objetivo comum: minar a sociedade de consumo por meio de ações terroristas, tendo por alvo organizações emblemáticas, como as empresas de cartão de crédito. Se no começo a empreitada parece obter sucesso, irmanando os personagens, a implementação do referido projeto resulta no nascimento de uma organização de cunho nitidamente fascista, militarizada e despersonalizante, que ao negar o consumismo, também rejeita o humanismo.

A idéia da descoberta do sentido da vida por meio da proximidade da destruição, não é nova para o diretor. Em seu filme anterior, "Vidas em Jogo" (The Game), David Fincher já havia esboçado o tema. Nele, vemos novamente um personagem entediado e solitário, interpretado por Michael Douglas, que por acaso é envolvido num perigoso jogo de gato e rato. Ao lutar pela sua sobrevivência e virtualmente "morrer", ele finalmente descobre um sentido para a sua vida, questionando os seus antigos valores. Será esta a razão que leva muitos executivos a praticarem esportes radicais?

Voltando ao Clube da Luta, marginalmente o filme questiona o que é "ser homem hoje em dia". Se as conquistas femininas e o movimento do politicamente correto minaram o poder masculino - poder este, em grande parte, abusivo - nos últimos anos também fragilizaram o homem, deixando-o sem rumo. A conquista de direitos políticos e de uma crescente igualdade de oportunidades para as mulheres no mercado de trabalho, enterrou a antiga imagem de "homem provedor". Restou ao homem moderno (ou "pós-moderno?") cultuar os músculos nas imagens publicitárias e nas academias de ginástica. "Clube da Luta" questiona esse novo valor estético de masculinidade. Ao ver a foto de um homem musculoso no metrô, Tyler pergunta ao protagonista: "Isso é ser homem para você?".

Ao contrário do que foi propagado à época de seu lançamento, o filme não incentiva a violência, pois esta não aparece como elemento de catarse, comum em filmes comerciais de ação, desses que são exibidos às dúzias e sequer são questionados. Assim como o austríaco "Violência Gratuita" (Funny Games), o filme de Fincher utiliza a violência para problematizar o mundo atual e, - quem sabe? - reagir a ele."