BORDER="0" SCROLLING="no" FRAMEBORDER="0"> Críticas - Cidade de Deus
Christian Jafas, Leitor do Adoro Cinema - Nota 9:

"“Assistir a Cidade de Deus é um dever cívico.” Tenho que começo a falar do filme com o comentário de Zuenir Ventura. Cidade de Deus não é apenas uma diversão, um James Bond ou algo do tipo. Também não é um filme de ação ou um policial americano. Está muito longe disso tudo. Cidade de Deus ultrapassa todos esses níveis. O filme não tem nenhum problema: o roteiro é envolvente, a montagem e a fotografia mudam de acordo com a narrativa, os atores estão perfeitos, a direção une todos esses elementos num filme forte e preciso. Mas não é por isso que CDD se torna obrigatório. O filme não pode, não deve ser encarado como simples diversão. Nunca antes um trabalho conseguiu restituir a ascensão do tráfico de drogas de forma tão chocante e realista. Toda essa realidade está calcada na obra de Paulo Lins que viveu na favela, fez uma pesquisa etnográfica quando estudante, escreveu o livro, participou do roteiro e imprimiu no filme “o interior dos personagens, evitando a visão de fora, uma visão pequeno-burguesa.” Cidade de Deus deve incomodar os hipócritas por que não julga e executa seus personagens. O filme não se preocupa em fazer marcações rígidas e foge do clichê entre o bem e o mal. Na vida real essa divisão é muito tênue. É muito fácil apresentar o vilão como uma pessoa que apanhava dos pais, que cresceu sem amor, que teve a vida distorcida, que vive na miséria. Se apenas 10% da população das favelas fossem de marginais a vida no Rio seria insuportável. O personagem Zé Galinha entra para o crime depois de um trauma, mas e os outros por que entraram? Você sabe como se forma um assaltante, um traficante? Eu não sei e o filme tampouco. O trio formado por Paulo Lins, Kátia Lund e Fernando Meireles se preocupa em contar a história da comunidade chamada Cidade de Deus em pouco mais de duas horas. Muito pouco para narrar três décadas de crime e ainda tirar tempo para julgar alguém. O público pode tirar suas próprias conclusões, ou pode também sair do cinema e partir para o bar comentar a vitória do Flamengo. O grande mérito do filme é questionar o papel e a responsabilidade de todos. Para Kátia Lund “a violência e o tráfico é um problema social e não policial.” O filme cumpre seu papel social de todas as formas possíveis. Apenas um ator profissional foi usado, os outros são jovens selecionados entre mais de dois mil candidatos. Quarenta foram selecionados e tiveram aulas de interpretação e fizeram oficinas para encarnar seus personagens. Alguns filmes surgem como divisor de águas dentro da indústria cinematográfica e outros marcam a imagem de uma sociedade. A política americana é pregar que a violência só acontece nos países do terceiro mundo (esse termos ainda pode ser usado?) mas e New Jack City? Quando foi lançado esse filme irritou alguns críticos americanos. E Cidade de Deus teve o mesmo efeito. Criticar é muito difícil, mas alguns acham muito fácil. Realmente deve ser fácil criticar parado no sinal, dentro do seu carro de luxo importado e com o ar ligado e xingando os moleques que querem lavar os vidros com água suja. Algumas críticas que foram escritas sobre o filme são válidas por que ajudam a esquentar a discussão. Mas outras são tão agressivas que se tornam inacreditáveis. Um pseudocrítico do Jornal do Brasil chegou a dizer que o filme não tem cuidado com a ética. Qual ética? A ética da classe média que pode ser ofendida com as imagens de CDD? Realmente perder espaço em jornal para escrever sobre como a fotografia em sépia do filme deveria ser usada em comercial de refrigerantes e não para representar a década de 60 é ajudar a alienar o público. É fazer o caminho inverso ao filme. É criar um julgamento superficial das questões. Cidade de Deus cumpriu seu objetivo. É um bela realização cinematográfica e ainda gera um furacão por onde passa. Se os diretores erraram em alguns pontos, eles erraram fazendo. Só os teóricos e críticos superficiais acreditam que um projeto pode ser 100%, atingir a totalidade de suas idéias. Cidade de Deus existe. E o que críticos como Nelson Hoineff acrescentaram a sociedade? O que eles produziram para justificar suas agressões ao filme? “Assistir a Cidade de Deus é um dever cívico.” Fico com Zuenir Ventura.."