Wesley de Castro, Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:

"Cidade de Deus Brasil, 2002. Direção : Fernando Meirelles & Kátia Lund Logo na primeira cena desta obra surpreendente, um galináceo em fuga identifica-se, emocional e simbolicamente, com o narrador da história. Ao som da frase publicitária que está associada à distribuição do filme (“se correr ,o bicho pega. Se ficar, o bicho come”), vemos um garoto encurralado entre duas fileiras de pessoas armadas. De um lado, os traficantes. Do outro, os policiais No meio desse confronto, a população “inocente” da favela. Este será o dilema recorrente desta peça magistral da cinematografia moderna :o impacto devastador das escolhas realizadas por alguns desses “inocentes”, quando se encontram diante de dois (ou mais) grupos de antagonistas que se utilizam de métodos instrumentais semelhantes. Ao contrário, no entanto, do que é feito em boa parte das obras cinematográficas que tematizam a problemática do tráfico de drogas, a população é retratada aqui como principal responsável e mantenedora das mazelas sociais a que estão vinculadas: é a coletividade pobre quem leva os botijões de gás roubados para casa .São os moradores da favela que escondem e aceitam os favores dos traficantes .São esses mesmos moradores que defendem formas espúrias de discursos anti-governamentais e medidas que pregam a “justiça pelas próprias mãos”. Ou seja, quando acontece algum (anti-)milagre, este é sempre de responsabilidade puramente divina, estando os moradores isentos de qualquer culpabilidade. Será mesmo assim? Esta pergunta encontra uma possibilidade atordoante de resposta através de outra recorrência marcante no filme, a onipresença de animais .Em quase todas as seqüências, encontramos espécimes animais, que vão desde a galinha perseguida no início até as vacas e cavalos que percorrem as ruas da favela, passando pelos peixes que são vendidos pela família do narrador. Entretanto, o animal que mais aparece é o cachorro. Representações mistas de dependência, fidelidade e agressividade reativa, as aparições caninas neste filme denotam que os seres humanos retratados estão imersos num estágio pouco evoluído do ‘état de nature’ descrito pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss. Em outras palavras: os instintos animais (nem “bons” nem “maus”, meras técnicas de sobrevivência) determinam os comportamentos das pessoas que vivem em Cidade de Deus, associando-se porém ao conformismo e à resignação, típicos do ‘état de culture’, para configurar definitivamente o círculo vicioso do crime que pred omina até hoje, muitos anos depois da conclusão temporal do filme. A imparcialidade valorativa do roteiro deve ser destacada. Apesar de o narrador Buscapé ser apresentado como um sobrevivente “do bem”(o que viabilizaria de imediato a afeição do espectador a este personagem), seus comportamentos vocacionais não diferem bastante daqueles que ele considera como “maus”. Tanto Buscapé quanto policiais, traficantes e jornalistas fazem as mesmas coisas (bebem, comem, transam, fumam maconha...).Com exceção do viciado em cocaína Thiago, eles se referem ao tráfico quase sempre por cima (aspectos relativos ao poder), esquecendo a participação definitiva dos consumidores de drogas no enraizamento dos conflitos desenrolados. Ao se observar a crescente imbricação de atitudes similares entre os mais diferentes personagens deste filme, pode-se afirmar (em termos de sociologia previdente) que a caótica situação aqui apresentada só deixará de existir quando todos os envolvidos na enorme teia do tráfico (que vai do Presidente da República ao pai moralista q ue espanca o filho viciado) aceitarem quotas individuais de sacrifícios realizados em nome da Humanidade. No entanto ,para que as conseqüências nocivas do autotelismo ambicioso de Zé Pequeno, do colaboracionismo amigável do “paulista legal prá caramba” e da corrupção de alguns membros execráveis do corpo policial ganhem visibilidade pedagógica, torna-se imprescindível maior conscientização social por parte da Imprensa e dos meios de comunicação em geral. Estes, através da espetacularizacão da violência, fomentam os desejos de “publicidade intocável” dos desorientados vilões de nossa sociedade midiocrática. Como o final do filme parece indicar, os funcionários da Imprensa têm o dever e a responsabilidade de apresentar ao público todas as facetas (positivas e negativas) de um mesmo conflito, irrelevando as inferências dolorosas de ordem puramente hipotética .Como afirma o já citado slogan do filme, mais cedo ou mais tarde os indivíduos terão que responder pelas conseqüências ( diretas e indiretas) de suas atitudes ,não sendo aconselhável perseguir os descaminhos covardes de condutas morais individualistas e descontextualizadas. Deixando de analisar os aspectos sociológicos do filme, que demonstraram êxito inquestionável, vale ressaltar suas belíssimas inovações ‘kinezthetikas’ ,atingidas graças à comunhão perfeita entre cacoetes publicitários, elementos “cinemanovistas”e recursos típicos do cinema de ação norte-americano. O elenco homogêneo é indefectível, com destaque para a excelente composição de Phelipe Haagensen como o bandido “responsa” Bené. A seleção musical, bastante variada, é igualmente sublime, tendo uma função bastante econômica na construção de algumas seqüências dramáticas. Por fim, merece destaque a qualidade substancial do roteiro, que consegue ser ao mesmo tempo pungente e humanista, incluindo de maneira bastante sutil toques de “humor cinza”(tachar o inegável senso cômico deste filme como “humor negro” seria, no mínimo, um apelo à inverosimilhança), como a excelente seqüência em que duas mulheres da favela falam sobre sexo. Tal conjunto de fatores faz desta obra um híbrido cinem atográfico de primeira grandeza, fundamental para a evolução artística contemporânea e para a conscientização do público midiático. Não é à toa que o filme estrutura sua narrativa a partir de círculos paradigmáticos que obedecem (em sua maioria) a um rigoroso sintagma cronológico. Por falar em círculos, é simplesmente notável o modo como, logo na primeira cena desta obra surpreendente, um galináceo em fuga identifica-se, emocional e simbolicamente, com o narrador da história.!."