Alexandre Araújo, Leitor do Adoro Cinema
- Nota 9:
"Cidade de Deus, filme brasileiro dirigido
por Fernando Meirelles e que entra em circuito nacional dia 30 de Agosto em
100 salas, e em 50 salas norte-americanas. É Baseado no romance Cidade
de Deus de Paulo Lins. O filme conta, através da visão de Buscapé
(Alexandre Rodrigues) o crescimento do crime organizado no bairro carioca Cidade
de Deus, entre os anos 60 e o início dos anos 80. A história é
baseada em histórias reais. Cidade de Deus é uma injeção
de ânimo para quem se interessa pelo cinema brasileiro. Pois mostra que
é possível se fazer um cinema de qualidade no Brasil. O filme
possui uma história que pode até parecer banal, ou melhor, um
assunto que ultimamente vem sendo banalizado, a violência. Porém
de banal não há nada, o filme é poético, não
cai no ponto comum dos demais filmes que tratam do assunto, ele sabe prender
a atenção do espectador não permitindo em nenhum momento
o desvio de olhar. Cidade de Deus começa a diferenciar-se dos demais
pela fotografia, onde já se pode notar uma característica do seu
diretor, de formação publicitária, ele leva essa sua experiência
para a telona, e o efeito é excelente aos olhos do expectador. A fotografia
é limpa, sem risco, câmera é firme, não treme, passando
assim uma segurança. Porém está característica não
é de agrado geral, há quem reclame, falando que um filme de tal
assunto não deveria possuir tal fotografia, deveria ser mais suja, a
câmera deveria balançar mais. A montagem de Cidade de Deus é
também de encher os olhos, pois ela possui uma quebra de linearidade,
fazendo assim um jogo com a cabeça do espectador, forçando-o a
manter total atenção aos acontecimentos e nomes. O elenco novato,
que possui como único nome conhecido o de Matheus Nachtergaele (Sandro
Cenoura). A curiosidade no elenco é que grande parte dele foi escolhido
entre garotos que vivem em diversas favelas e comunidades do Rio de Janeiro,
e que não tinham tido qualquer contato com atuação. É
tanto que após a escolha do elenco, a produção do filme
passou cerca de quatro meses em laboratório com esses atores. Fazendo
com que existisse uma integração entre eles, como se eles realmente
se conhecessem há muito tempo, tivessem crescido juntos, ou criando rivalidades.
Com a finalidade de que ao final tudo isso fosse passado com grande maestria
para a telona, convencendo o espectador do que ele estava assistindo. Uma passagem
que pode ser citada, sem que se estrague a surpresa do filme, é o do
Caixa Baixa, um grupo de crianças com idade entre seis e doze anos que
cometem pequenos assaltos, ao vê-los juntos, em um assalto, você
realmente acredita na irmandade que há entre eles, dando at! é
a impressão de que são amigos de longa data, e estão acostumados
a cometerem delitos juntos. Interessante também é que muitos podem
criticar o fato de que Cidade de Deus utiliza-se muito de palavrões em
diálogos, além da mostra de pessoas usando drogas. Dando a impressão
de que o diretor fez uso desses com intuito de tentar chocar ao espectador.
Mas não é isso que ocorre. Esses são elementos que integram
ao contexto, não estão jogados no ar. E a atenção
do espectador fica tão presa aos fatos, que palavrões e uso de
drogas, passam como fatos normais, integrantes da temática. A narração
do filme, feita por Buscapé, que vai explicando determinados acontecimentos,
e porque eles ocorreram pode irritar a alguns espectadores do filme. Alegações
de que não havia tal necessidade, que já estava vendo, e não
precisava ser guiado. Só que este artifício utilizado pelo diretor
se encaixa ao filme, pois dá ao filme um ar meio que documental, o de
que uma história está sendo contada, explicações
devem ser dadas, fatos relembrados. Um fato que pode não parecer aos
olhos de todos, é a lembrança ao filme Pixote, a lei do mais fraco.
É uma semelhança muito discreta, que somente remete ao filme de
Hector Babenco. Não chega nem a ponto de se dizer que Fernando Meirelles
teria se inspirado no filme antecessor. O que há na verdade é
somente uma ponte, uma ligação de lembranças entre os filmes,
que possui a violência tão presente na vida de jovens sem opção.
Cidade de Deus é sem dúvida um filme que merece ser visto e revisto,
comentado, onde o público deve responder a convocação e
ir ao cinema, prestigiar o trabalho brasileiro. E o espectador que for assistir
a esse filme estará vendo a um épico. E o cinema brasileiro com
esse filme, torna verdadeira a velha máxima que diz: “O GUERREIRO
ESTAVAFERIDO, MORTO JAMAIS”."