Carlos Massari, Leitor do Adoro Cinema - Nota 8:
"Há muito tempo que um filme nacional
não estreava tão cercado de expectativas quanto CARANDIRU, do
argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco. Além de ser baseado
em um best-seller aclamado por todo o país, ESTAÇÃO CARANDIRU,
do médico Druazio Varella, entrou em cartaz em um momento especial para
nosso cinema, após presenciarmos uma de nossas maiores obras-primas.
Pois, ano passado, quando CIDADE DE DEUS estreiou, muita gente ainda considerava
o cinema nacional como "Pura Pornografia". Se Fernando Meirelles tentou
mudar tal perspectiva, Babenco, autor do clássico PIXOTE - A LEI DO MAIS
FRACO, lança em CARANDIRU a prova definitiva que o nossos filmes podem
ser tão bons quanto os estrangeiros. Sem querer comparar os dois filmes,
levando em consideração que há apenas um fator comum entre
os dois (O painel de um determinado local, manchado pela violência), vemos
que CARANDIRU é uma adaptação de estética precisa,
capaz de reduzir histórias que caberiam em uma fita inteira para 5 minutos,
interligadas por um sentimento único de respeito entre os presos. No
caso, o nome de Drauzio Varella não é citado (Apenas uma frase
dele no final, que serve para abafar a opinião de que há maniqueísmo
na projeção), apenas é mostrado um médico que vai
ao Carandiru na década de 80, fazer um trabalho de prevenção
à AIDS. Lá, esse doutor faz amizade com diversos presos e percebe
que o mundo não é como pensava. Sem nenhum compromisso social,
CARANDIRU tem o mérito de simplesmente contar sua história. Não
estabelece nenhuma crítica, seja ela à PM, à diretoria
ou aos presos. A partir de tal postura, abre espaço para, de maneira
descompromissada, iniciar a narrativa, com a chegada do doutor ao local. O filme
flui de maneira extraordinária, seja pela trilha sonora, que tem forte
apelo, pelo elenco de presença marcante, liderado por nomes conhecidos
do cinema como Wagner Moura, Gero Camilo, Luiz Carlos Vasconcelos, Rodrigo Santoro
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e Lázaro Ramos, invariavelmente em interpretações de primeira
classe, ou, principalmente, pelo roteiro, que alia centenas de personagens em
um ritmo cadenciado e constante. O terceiro ato é certamente o mais polêmico
de CARANDIRU - Com incrível violência, é mostrado o massacre
no qual 111 presos foram assassinados. Erroneamente acusada de maniqueísta,
a passagem mostra a visão dos PRESOS - Convenhamos, se fosse para mostrar
a visão dos PM's, o filme deveria chamar POLÍCIA MILITAR DE SÃO
PAULO, e não CARANDIRU. Além disso, Babenco mostra na tela uma
frase de Drauzio. - Apenas três lados podem contar o que houve naquele
dia: A polícia, Deus e os detentos; eu ouvi estes últimos. Abolindo
CARANDIRU daquele que seria seu defeito mais grave, sobra espaço para
criticarmos aquela que realmente é sua falha, por mais incrível
que pareça: O doutor está na projeção apenas para
sorrir aos presos, sem nenhuma serventia extra. Luiz Carlos Vasconcelos não
tem personagem, o que o transforma em objeto nulo em cena. Porém, com
violência explícita e crua, CARANDIRU mostra aquilo que é
uma conhecida realidade de nosso país, sem denunciar ou criticar nada
nem ninguém, e, assim como o livro de Drauzio Varella, é fascinante.
Consegue unir várias histórias que poderiam ser de nossos vizinhos
em 150 deliciosos minutos de projeção, tornando-se uma verdadeira
obra cinematográfica."