Wallace Andrioli Guedes, Leitor do Adoro Cinema
- Nota 10:
"O diretor argentino , naturalizado brasileiro
, Hector Babenco é o principal responsável pela popularização
do cinema nacional no exterior , principalmente E.U.A. e Europa , graças
à obras suas de peso como "Pixote - A Lei do Mais Fraco" (indicado
ao Globo de Ouro de filme estrangeiro em 1981) e "O Beijo da Mulher Aranha"
(co-produção entre Brasil e E.U.A. indicada aos Oscars de melhor
filme , ator para Willian Hurt , roteiro adaptado e diretor , em 1986 , sendo
que Hurt sagrou-se vencedor). Justamente após o enorme sucesso de "O
Beijo" , Babenco ingressou de vez no cinema Hollywoodiano , realizando
o elogiado drama "Ironweed" (1987) , com Jack Nicholson e Meryl Streep
e o não tão aclamado "Brincando nos Campos do Senhor"
, filmado inteiramente na Amazônia e com Aidan Quinn , Tom Berenger ,
Kathy Bates e Daryl Hannah no elenco. Pouco d epois , o diretor descobriu estar
com câncer linfático , necessitou de um transplante de medula e
tratou-se com o médico Dráuzio Varella. Durante a recuperação
, Babenco fez "Coração Iluminado" (1998) , filme falado
em espanhol , estrelado por profissionais brasileiros (Maria Luiza Mendonça
, Xuxa Lopes) e argentinos (Norma Aleandro , de "O Filho da Noiva")
e ainda se apaixonou pelo livro "Estação Carandiru"
, escrito por Varella. Quando totalmente recuperado , Hector partiu então
para a adaptação do texto para o cinema , com o total apoio do
médico/escritor. Nascia "Carandiru". No ano passado , quando
o espetacular "Cidade de Deus" conseguiu aquele estrondoso sucesso
, tanto no Brasil quanto lá fora , acabou sendo estabelecido um patamar
para filmes que procurassem denunciar o lado violento de nosso país.
Ficou claro que todo e qualquer filme que fosse lançado sobre o tema
, teria por obrigação , no mínimo , alcançar o mesmo
nível de "CDD". Quando começou a rodar "Carandiru"
, Babenco não esperava por isso , não havia como imaginar o surpreendente
sucesso que o filme de Fernando Meirelles faria. E é por isso que "Carandiru"
merece ser aplaudido de pé. Pois , se já conhecesse "Cidade
de Deus" , bastaria a Babenco procurar copiar ao máximo a obra de
Meirelles , garantindo assim seu sucesso (ao menos de público). Mas não
, o que o diretor fez foi , ao mesmo tempo que mostra uma história que
pode parecer não tão original , realizar uma poderosa e inteligente
crítica social , e um dos melhores filmes que o cinema nacional já
produziu. É fato que , pouquíssimas vezes em uma produção
brasileira , viu-se um elenco tão perfeito , em uma invejável
sintonia. "Central do Brasil" e o próprio "Cidade de Deus"
são os exemplos que me vieram à cabeça agora. Rodrigo Santoro
dá um verdadeiro show de interpretação e demonstra enorme
versatilidade e talento no papel do travesti Lady Di (sei que essa minha opinião
é contrária à da maioria dos críticos). Para quem
ainda duvidava da capacidade do ator , mesmo depois de performances excepcionais
em "Bicho de Sete Cabeças" e "Abril Despedaçado"
, agora não resta mais dúvidas : Santoro é a maior revelação
do cinema nacional em muito , mas muito tempo. Foi muito bom também conferir
mais uma grande interpretação de Milton Gonçalves e de
Maria Luiza Mendonça , confirmar o talento de Gero Camilo e Lázaro
Ramos , e ter algumas agradáveis surpresas , como o "noveleiro"
Caio Blat aparecendo muito bem , o rapper Sabotage em sua última participação
nas telas (esteve também em "O Invasor ") , e a revelação
dos excelentes Aílton Graça (reparem em sua enorme semelhança
com Denzel Washington) e Milhem Cortez , roubando a cena como o assassino Peixeira.
Mas o grande destaque é , sem dúvidas , Wagner Moura. O ator ,
que já havia demonstrando excepcional talento em "Deus é
Brasileiro" , volta a surpreender (e comover) como Zico , de longe o mais
complexo personagem da trama. Traficante que se vicou em crack , esse é
um homem que enfrentou o pior da vida , já teve um dia a felicidade ao
lado de seus "irmãos" Deusdete (Caio Blat) e Francineide (Julia
Ianina) , mas se entregou totalmente ao crime e às drogas. Moura consegue
tranformar Zico em um ser humano , acima de tudo , que acaba conquistando a
platéia (mesmo com alguns atos terríveis seus , como o que ele
faz com Deusdete). A única decepção fica mesmo por conta
do apático Luiz Carlos Vasconcellos , no papel do médico que ouve
as histórias dos detentos. Mas nada que estrague o grande trabalho desse
grandioso e ma ravilhoso elenco. Vale destacar também : o roteiro de
Victor Navas , Fernando Bonassi e do prórpio Hector Babenco que mantám
presa a atenção do espectador a todo momento , mesmo com tantas
histórias sendo contadas e entrelaçadas. Aliás , esse era
um fator que poderia deixar "Carandiru" extremamente confuso , mas
foi exatamento o contrário que aconteceu graças ao brilhante trabalho
desse trio de profissionais , que nem mesmo alguns exageros quanto à
conduta dos policiais nos momentos finais da projeção são
capazes de estragar ; a fotografia de Walter Carvalho (mais um trabalho invejável
do responsável pela belíssimas imagens de "Central do Brasil"
e "Abril Despedaçado") ; e , é lógico , a fantástica
direção de Babenco , confirmando que é , e sempre será
, um dos mais talentosos e capacitados diretores que o cinema nacional já
concebeu. Ele vem sendo criticado por mostrar no filme apenas a visão
dos presidiários sobre os acontecimentos ali narrados , e por tratar
os mesmo como inocentes , vítima s do sistema que cometeram crimes sempre
justificáveis. Quanto à primeira escolha de Babenco , ela é
justificada no final , com a frase "Só Deus , a polícia e
os detentos podem contar o que houve naquele dia. Eu ouvi esse últimos".
Já a acusação quanto ao tratamento que o diretor deu aos
presos , vale lembrar uma frase do personagem Seu Chico (Milton Golçalves)
, quando questionado pelo médico quanto à razão de estar
ali. Ele diz : "o senhor quer ouvir outra mentira ? Aqui todos são
inocentes , o senhor ainda não percebeu isso ?". Ou seja , as histórias
contadas ao médico , e conseqüentemente a nós , é
a versão dos presos , e não necessariamente o que realmente ocorreu.
Portanto , não consigo imaginar motivos para não colocar "Carandiru"
no mesmo patamar de outras obras do diretor , inclusive das mais aclamadas "O
Beijo da Mulher Aranha" e "Pixote", e também de "Cidade
de Deus" , o que quer dizer muito. Além de funcionar como uma poderosa
crítica social , "Carandiru" também é entretenimento
de primeira."