Carlos Massari (e-mail), Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:

"Acredito que raramente um único filme conseguiu ser tão emocionante e hilariante ao mesmo tempo como "Cantando na Chuva", um musical repleto de passagens antológicas e que marcaram a história do cinema. Hoje, infelizmente, esse gênero que deu tantas obras-primas à sétima arte está quase morto. Tudo o que podemos fazer é torcer para que um dia Hollywood volte a ter o bom senso de produzir filmes tão contagiantes como esses. Vivemos em uma época onde a maioria das obras vem rotuladas com "ação", "suspense" e sempre coisas parecidas. É impossível rotular os musicais dessa maneira, eles mesclam tudo, comédia, drama, romance, suspense, e todos os gêneros possíveis. É o cinema arte, que todos os fãs dos verdadeiros filmes lutam incessavelmente para tirar do túmulo.

Aqui, Gene Kelly usa mais uma de suas idéias brilhantes: satiriza de forma leve (mas impiedosa) a transição do cinema mudo para o falado. Na época do lançamento de "O Cantor de Jazz" (primeiro filme falado), todos achavam que o som seria uma coisa fútil e vulgar... Mesmo assim, tivemos um sucesso (e uma revolução tecnológica) que fez com que os atores famosos se interessassem pelo novo meio de fazer filmes: o casal queridinho, Don Lockwood e Lina Lamont, então resolvem entrar no espírito da coisa e lançar um desses filmes. Os problemas surgem quando Lockwood, por acidente, cai no carro de uma atriz de teatro por quem se apaixona perdidamente. Ela era cem vezes mais talentosa que Lamont (essa ainda achava que era querida por todos), sendo que a famosa atriz tinha uma voz insuportável (maestria de Jean Hagen) e inaudível, por isso precisava ser dublada nas telas. A partir daí vão surgindo as emoções e confusões dessa turma de carisma inacreditável.

Absolutamente todo o filme é levado com magia por Gene Kelly e Stanley Donen (parceria arrasadora), que não exageram nas partes musicais, para não tornar a projeção arrastada. Sempre que possível um número modesto entra e depois há transição de diálogos e cenas que deixam qualquer um chorando... de tanto rir. A melhor das passagens que não utilizam música é, sem dúvidas, a pré-estréia do filme "Cavaleiro Duelador". Na parte que, em pleno cinema, o som sai de BORDER="0" SCROLLING="no" FRAMEBORDER="0"> sincronia obriga todos a parar o filme para se recompor. Caso contrário, os riscos de enfarte ou ataques seriam imensos.

Mesmo com tanta magia, a cena pela qual o filme é mundialmente lembrado é aquela onde Gane Kelly sai no meio de uma tempestade sem guarda-chuva e, sapateando em um monte de poças d'água, cantando a inesquecível "Singin'in the rain". É uma cena incrível, nem dá para descrever. Todos ficam com um sorriso largo só por terem visto tamanha pérola. Ainda existem outros números capazes de produzir o mesmo efeito, em sua maioria com Donald O'Connor e seu personagem hilário. No começo, quando ele apanha de uma boneca de pano, lembrando um circo, eu quase tive de voltar meu maxilar ao local correto.

E os personagens não são inovadores, ou tecnicamente fantásticos. Apenas ficam consagrados pelo carisma dos protagonistas (coisa raríssima na atualidade). Gene Kelly dá um show e a cena da chuva gravou seu nome no cinema. Debbie Reynolds encantadora, com participações sempre alternando em uma linha tênue entre a comédia e o drama, totalmente em conjunto com aquilo que é proposto pela direção do filme. Donald O'Connor, como já disse, está hilário, em tudo o que ele faz quase causa danos ao espectador de tantas risadas que arranca. Jean Hagen produziu uma voz não menos fantástica para sua personagem, aparentemente mais um clichê desnecessário mas que logo ganha a magia de todo o filme.

"Cantando na Chuva" é isso: uma obra sensacional, inesquecível para amantes de cinema, fãs de música, e, principalmente para os dois juntos. Se você está de mau humor, triste, deprimido ou qualquer coisa, a melhor solução existente no mundo é assistir a essa obra-prima do cinema clássico. Todos nós, que amamos a sétima-arte, torcemos incasáveis para que, um dia o cinema volte a tal nível. Esse filme sim influencia a mente das pessoas: influencia todos a serem felizes por toda a vida. Ou você nunca teve vontade de sair por aí CANTANDO NA CHUVA, APENAS CANTANDO NA CHUVA?"