Diego Custódio Borges, Leitor do Adoro Cinema
- Nota 10:
"Imagine, você, um cara
no final da adolescência. Como todo adolescente, não se entende
com os seus pais. Acrescente ainda uma total falta de perspectiva de futuro
e uma necessidade urgente de ser reconhecido. E para você não ficar
paranóico, você fuma uns cigarrinhos de maconha. Algo relativamente
comum, não ??
Entretanto, seu pai acha um cigarrinho. A partir daí, você acaba
parando em um hospício e sua vida vira um inferno. Esta é a trama
do ótimo filme, Bicho de Sete Cabeças. O título representa
esse garoto interpretado de forma surpreendente por Rodrigo Santoro depois dessas
internações em manicômios.
Se opera um verdadeiro massacre físico e psicológico
em relação aos internos. O filme retrata como o tratamento nesses
lugares é desumano, cruel e grotesco. Além de trazer com uma realidade
impressionante o estado e o tratamento dos loucos, mostrando de forma contundente
a vida em um hospital psiquiátrico e clima de amizade que
se forma entre os internos. Estes destacam a peculiaridade da situação
e a estranheza de Wilson(Rodrigo Santoro) ao despertar no lugar. Este juntamente
com os loucos nos dá um ambiente perturbado , fantasmagórico.
Mérito dos atores que representam a massa de internos além das
atuações de Caco Ciocler, Gero Camilo e outros. Outra grande sacada
do filme é a referência a um poema de Fernando Pessoa sobre viver
a vida fingindo ser o que não é e à carta ao pai de Kafka
que inspira a carta mandada a Wilson ao pai depois de tantas internações.
A par da sensação de estranheza do personagem
principal nesse ambiente inóspito, junta-se a necessidade de urgência
imprimida pela câmara da diretora Laís Bodansky. Tudo parece ser
gritante. Constituindo um verdadeiro clima de hipocrisia e injustiça
relativas a falta de diálogo na família e ao tratamento nos manicômios.
Os pais de Wilson , Cássia Kiss e Othon Bastos, refletem a repressão
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(pai) e a falta de comunicação(mãe) entre pais e filhos.
Daí a repercussão nos festivais de Recife e Brasília, onde
a platéia ovacionou o filme.
Além das ótimas atuações, uma
direção que não escorrega e consegue manter o clima da
história, um roteiro bem montado que permite o pleno desenvolvimento
da trama, a trilha sonora e a participação de Arnaldo Antunes
contribuem para que tudo transcorra em harmonia. Tudo se encaixa de que forma
que a mensagem da película não se esvai, como algo que entra por
um ouvido e saí pelo outro. É um apelo que ficará com certeza
martelando seus miolos, se você continuar com eles intactos depois de
assisti-lo. É uma expressão repetitiva, mais é um filme
vigoroso como um direito de esquerda ou soco no estômago."