Marcello Carvalho (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:
"Para
quem tem uma visão somente surrealista de Buñuel, "A Bela
da Tarde" é uma surpresa. Se bem que o estilo corajoso e polêmico
é o mesmo. A última vez que tive contato com essas fantasias femininas
tão complexas foi com os devaneios literários de Emma Bovary,
apesar de as perversões da Belle de Jour serem mais explícitas,
mas não tão explícitas para Buñuel, que soube abordar
todo aquele assunto "lupanário" de modo intenso porém
sem extrapolações.
É um filme insinuante, antes
de tudo. Um filme que mexe com os limites da fantasia e fica ali naquele termo
do real/fantasioso baseado no enfado de Severine (Catherine Deneuve), a burguesa
recém-casada e fria com o marido que viu nas aventuras sexuais num prostíbulo
um escape excitante. Algo parecido com o escapismo literário de Madame
Bovary.
Severine torna-se prostituta depois
de ouvir algumas conversas de amigos sobre os bordéis e se interessa
no assunto, logo depois sucumbindo aos desejos estranhos de submissão
e humilhação sexual (açoites, ofensas ("puta",
"vagabunda", etc., lama na cara). Percebe-se que quanto mais ela se
rebaixa, mais recupera seus sentimentos em relação ao marido,
mais o ama e o graceja; ou seja, tudo o que a frieza do casamento não
oferecia ela buscava com estranhos para assim tentar recuperar o tesão
da vida conjugal.
Belle de Jour começa a notar
a estranheza do mundo em que se colocou quando um cliente se apaixona por ela,
logo perseguindo-a. Tarde demais. O antagonismo realidade/fantasia tem um limite
aí, pois Marcel (cliente) alcança sua vida de casada e a coisa
termina quase que de modo melodramático não fosse a dubiedade
do fim, que me deixou um tanto enleado...
Esse marco de Buñuel lembra
"De Olhos Bem Fechados", de Kubrick, pelo envolvimento da burguesia
no "submundo" e pela análise do casamento sucumbindo ao estresse
mundano. Pretendo ler o romance
homônimo em breve."