Depois do sucesso conjunto nos dois últimos filmes da trilogia Bourne, o diretor Paul Greengrass e o ator Matt Damon se juntaram para fazer Zona Verde (Green Zone, no original). O filme, dublado em alemão, foi apresentado à imprensa ontem.
Matt Damon, no auge da carreira, interpreta Roy Miller, um oficial do exército norte americano durante a ocupação do Iraque em 2003. A personagem vivida pela atriz Amy Ryan, como uma jornalista do Wall Street Jornal, é de caráter cosmético e não acrescenta absolutamente nada à trama, além de desperdiçar seu talento.
A história é baseada no premiadíssimo livro de Rajvi Chandrasekarans e mostra no mínimo duas perspectivas da Guerra do Iraque. Mas Hollywood não seria tal se não fosse totalmente previsível colocar um mocinho branco, bonitinho, todo engajado e responsável pelo quesito da "ética": "Estamos aqui para salvar vidas", diz ele a um iraquiano que se propoe a trabalhar como tradutor para o "ocupador".
No decorrer da trama, Roy Miller descobre que existem picuinhas entre o FBI e o Pentágono quanto a como lidar com esta guerra. Conforme ele vai descobrindo isso decide tomar as rédeas para o bem, claro, correndo risco de vida, agindo quase contra todos.
As atrocidades de uma guerra são pitadas de sal espalhadas em cenas previsíveis. Em sua essência Zona Verde é um filme 100% de ação. Os fissurados em action vão adorar. Os amantes de trilha sonora bombástica ininterrupta, também. Os que gostam mesmo de filme de guerra terão a consciência tranquilia e poderão curtir o filme como entretenimento.
O papel de mocinho de Miller só se segura pelo caráter empático de Matt Damon. Em muitas cenas o filme escorrega aqui e ali, fazendo quase um retrato cosmético da guerra e desenvolvendo uma dinâmica de war games. Os mais modernos aparelhos, GPRs para dizer o mínimo, e computadores velocíssimos, capazes de em dois minutos colocarem a disposição todas as atividades de uma pessoa, seja em qualquer parte do mundo.
Tirando o supérfluo e toda a parte bombástica da trilha sonora, o filme consegue sim trazer conteúdo nas cenas, onde fica claro que não há estratégia, que não se sabe quem é aliado e inimigo, que todos morrem de medo da Guerra do Iraque virar um segundo Vietnã e ainda sobra uma homenagem para os soldados, colocados em cena como valentes rapazes que acabam fritos, sempre que a política do Pentágono está comprometida até os dentes. Não se sabe realmente se os soldatos lutam contra o Iraque ou para que lutam.
O filme dá continuidade a uma tendência já cristalina no recente Festival de Cinema de Berlim. O cinema assume cada vez mais o papel de informante da realidade ao nosso redor. Enquanto as emissoras, comprometidas até os dentes, só nos mostram flashes da realidade, o cinema complementa, esclarece e amplia a nossa percepção do que acontece no mundo. Especialmente quanto às regioes de crise, esta contribuição é mais do que necessária. A mídia clássica está sendo rapidamente substituida pelos YouTubes, pelos Google Earth e, principalmente, pela sétima arte.
Matt Damon é uma ótima escolha para o papel. Bonitão. Um verdadeiro colírio para os olhos. É impossível não constatar a sua evolução como ator com a trilogia Bourne. Lembremos que no filme Dogma, Damon vegetava em cena na sombra de seu amigão Ben Affleck. Não há muito tempo atrás, seguindo o conselho de seu agente, teve que encarar fazer teatro em Londres para não ficar parado, o que para atores e atrizes neste business de ferro se iguala à sentença de morte.
Não só devido às filmagens de Bourne, Matt Damon é rotineiro em Berlim. Declarado amante da cozinha italiana, é sempre flagrado pelos paparazzi nos melhores restaurantes da cidade. Ontem, Mr. Damon e o diretor Paul Greengrass se apresentaram para a imprensa no famoso Hotel Adlon. Tranquilo e bem humorado, Damon aparece frente aos fotógrafos. Mais maduro, mais confiante e visivelmente sabendo curtir o sucesso, que veio tarde mas merecido.
A estreia de Zona Verde em solos europeus está marcada para o dia 18 de março.
SERGIO LUIZ DOS SANTOS PRIOR