Tião, parabéns por Lixo Extraordinário. É um prazer ter você aqui com o Adoro Cinema.
AC: Aquela cena que o Vik entra na tua sala e vocês se vêem pela primeira vez. Estava claro pra você no que isso iria resultar? (mexe a cabeça negando) Em que momento ficou claro pra você que aquela conversa resultaria num projeto deste tamanho?
Tião: Primeiro falamos com o Fábio, o assistente do Vik. Ele me explicou muito sobre o Vik, que se trata de um brasileiro que trabalha no exterior. Neste primeiro momento do nosso encontro não consegui imaginar a imensidão do trabalho dele, o reconhecimento que tem fora do Brasil e no Brasil também. Então pra mim estava conhecendo uma pessoa normal, aliás, ele é ótimo, uma pessoa muito humana e de um coração imenso.
Eu não entendia o que ele queria fazer. Um quadro que não é um quadro, que é uma foto que não é foto também, que é um embrulhado. Eu disse, cara, eu tô louco mas vamos tentar, vamos trabalhar juntos. Claro que não falei de cara pra ele que não havia entendido. (Falei só depois) Pra mim não ficou nada claro o que ele queria fazer.
Acho que ele que percebeu que a gente não entendia nada do que ele falava. Ele falava alemão com a gente. Um dia ele marcou conosco num estúdio e palestrou explicando sobre o trabalho e as obras que ele tinha feito. Ai que eu comecei a entender a dimensão do projeto. A coisa é grande, um desafio e eu gosto de desafios, pensei.
AC: Você, como presidente da associação, como foi aos poucos mudado o dia a dia de vocês?
Tião: Antes a gente tinha a visão de um mundo nosso. De um mundo exclusivamente nosso, aonde se expor não era legal, falar do que faz não era legal, não se tinha um pingo de orgulho daquilo que fazia. Era automaticamente um trabalho meio que clandestino, na nossa cabeça. Por mais que as pessoas digam "É um trabalho digno". Quando você percebe a importância do teu trabalho, de o quanto que você contribui… A importância do teu trabalho para a sociedade, para o meio ambiente e por outras questões, a gente se encontra como cidadão. Você percebe que aquilo que você faz não é um trabalho clandestino e sim um trabalho que não tem reconhecimento ainda, seja por parte da sociedade, do governo e do poder público. Isso mudou muito a nossa cabeça. Mais do que nunca eu tenho agora orgulho do que faço. É isso que me tornou uma pessoa melhor. É isso que criou as possibilidades que temos agora na vida. Toda a comunidade tem orgulho do trabalho que faz. Independente da situação ainda ser a mesma, a gente tem orgulho do que faz.
AC: E a questão do leilão em Londres? É uma cena emocionante, onde a gente como espectador fica ali no maior sufoco, torcendo para que tudo dê certo. Com a verba que a obra conseguiu em Londres o que foi feito na comunidade para vocês?
Tião: O dinheiro foi para a nossa associação. Não menosprezando a obra, o dinheiro foi bom, mas não deu para fazer uma grande coisa para a comunidade. Espero que com esse filme a gente possa fazer mais parcerias. É uma preocupação que a gente tem não só com a categoria, mas também com a comunidade. Porque a comunidade é a associação. A associação é a comunidade. Quanto à infra-estrutura, melhorou muito: compramos caminhões, maquinários, computador (tudo o que se precisava para ter um bom escritório), internet via rádio e colocamos ao mundo, tanto que a gente tem uma maior demanda de coleta seletiva, independente do aterro. Conseguimos ter acesso a internet, criar o website que é um novo horizonte. Queria contar que cada um de nós recebeu ajuda particular e compramos nossa casa. Hoje eu tenho minha casa, com muito orgulho (sorrisos).
AC: Quanto foi o valor do quadro vendido em Londres ?
Tião: Um pouco mais de 100 mil reais.
AC: Durante a tua estada em Berlim, você vai visitar a empresa ALBA Berlin, comparável à Comlurb, no Rio de Janeiro. O que exatamente você vai fazer lá?
Tião: O nosso projeto é apresentar o documentário, mas este documentário é estratégico para que possamos pensar em política pública na área de reciclagem. No Brasil, o governo federal tem se dedicado e ajudado muito a categoria de catadores de lixo, só que o lixo não é de competência federal, é de competência municipal. Quando você chega ao Municipal, o pessoal diz: "Não vai dar certo…". O Brasil bate recorde na reciclagem de papel. È preciso se pensar uma política pública para esta categoria. A coisa pode ser feita melhor. Além há a possibilidade de conhecer novas tecnologias.
AC : Onde fica a prefeitura do Rio de Janeiro nesta história?
Tião: Temos que pensar num projeto de coleta seletiva, considerando a Copa de 2014 e 2016, os Jogos Olímpicos. Vamos sugerir a prefeitura.
AC : Existe a possibilidade de ter "Lixo Extraordinário II", para constatar como a situação mudou?
Tião: Acho que tem que ter. As pessoas vão ansiar por isso. O que aconteceu? Como está a Suellen? E o Zumbi? E o Tião?
AC: Vocês se tornaram amigos nossos, pessoas importantes.
Tião: Algo me emocionou muito ontem: Sabemos que o público alemão é de uma personalidade mais privada, mais reservada. Você, vendo as pessoas aplaudirem, emocionadas, com lágrimas nos olhos e o cara chegar pra mim e dizer assim: "Eu só quero te abraçar". Tinha medo de chegar aqui. Eu, vindo de um país em desenvolvimento, que está se reinventando, buscando um novo caminho no nível internacional. Mas não foi nada disso! Foi tudo maravilhoso. As pessoas queriam saber mais, dispostas a poder ajudar. A gente vai ter que mostrar o resultado disso. Eu espero que daqui há uns dois anos a gente possa fazer isso.
AC: Ficaremos curiosos e atentos. Boa sorte aqui em Berlim. Muito sucesso para as duas outras projeçõoes do filme.
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