Henrique Miura, Leitor do Adoro Cinema - Nota 6:
"Um filme em que a história é
o bastidor do próprio filme. Estranho? Demais. Difícil, inclusive,
se acostumar com a idéia. Mais esquisito que isso, só o filme
anterior da dupla Spike Jonze e Charlie Kaufman, o ótimo "Quero
Ser John Malkovich". Se as pessoas achavam o cúmulo uma entorpecida
história sobre entrar na mente do ator John Malkovich, fico imaginando
o que irão achar de "Adaptação" aqueles que entrarem
no cinema sem saber nada o filme. Quem não assistiu ao filme anterior
da dupla, irá perder boa parte da gostosura do filme - como, por exemplo,
a parte em que Charlie Kaufman (no físico de Nicolas Cage) está
no set de filmagens do "Quero ser John Malkovich", onde os atores
principais da respectiva obra - John Cusack, John Malkovich e Catherine Keener
- estão entrando em cena. Pura bizarrice. Mas que fique claro: um filme
não tem muito a ver com o outro - a semelhança é apenas
uma, a originalidade das idéias. O que é verdade é o que
é mentira dentro dessa história não sabemos ao certo. Mas
"Adaptação" narra os fatos (o estresse, a pressão,
o bloqueio criativo), que cercam a vida de Kaufman, enquanto ele tenta adaptar
"The Orchid Thief", da escritora Susan Orlean. Sofrendo para adaptar
o livro, ele vive numa verdadeira paranóia. O filme então se divide
em dois: com a história do livro que Kaufman está adaptando (com
Meryl Streep e Chris Cooper), e com o roterista passando por todas as fases
do processor de adaptação, sendo auxíliado por seu irmão
gêmero,- que é um roteirista amador, que escreve seu primeiro roteiro;
com uma história clichê sobre serial-killer, tiros, perseguições,
assassinatos e etc. E isso vai totalmente contra a visão de Kaufman,
que gosta de idéias originais, não gosta de cartilhas (em uma
engraçada cena, o irmão lhe oferece ''os 10 mandamentos'' para
escrever um roteiro); é contra o esquemão da indústria.
"Adaptação" praticamente nem é um filme de Spike
Jonze, mas sim de Charlie Kaufman. Isso porque, o filme é nascisista
e tem um ego gigantesco. Em diversos momentos da história, Kaufman se
auto-proclama genial. Talvez, as críticas excelentes recebidas por "Quero
ser John Malcovich", tenham feito mal a cabeça do roteirista. Se
a idéia é altamente original, é mal utilizada para a propaganda
da genialidade do roteirista;- que com esperteza, consegue fazer uma maquiagem,
e deixar tudo com cara normalizada. Mas na verdade, levando os fatos pela maneira
que são apresentados, é possível encontrar um roteirista
de ego-inflamado, querendo provar sua genialidade para si mesmo, e tendo a pretensão
de ser genial. Mas isso não prejudica o fato mais importante do filme,
que é fazer com que possamos entender como surgiu a idéia de fazer
um filme semi-auto-biografico, quando simplesmente tinha que adaptar o romance
sobre orquídeas. Durante todo o filme, a imagem é: Kaufman é
o genial, e seu irmão o amador da indústria. O paralelo da linha
entre a capacidade máxima e a capacidade mínima, é sempre
destacada - com as idéias do roteirista genial, sendo sempre melhores
que as da do irmão, que são absurdamente batidas e banais. Porém,
como pode-se ver nos créditos do filme, os nomes que contas são:
Charlie Kaufman e Donald Kaufman, os irmãos gêmeos (sendo que o
Donald não existe, é fictício), pois quando Charlie não
consegue encontrar uma saida para o desfecho inconcluido do livro (termina no
pântano, sem explicações, sem sentido, sem algo que possa
dar um ponto final naquilo que estava sendo contado), recebe auxilio de Donald.
Ou seja, se durante todo o filme vemos uma gozação com as idéias
utilizadas por Donald em seu roteiro, o final de "Adaptação"
é uma verdadeira contradição contra aquilo que pregou contra
- assumindo de vez uma narrativa de fatos inexistentes, misturando policial,
em um jogo de gato e r ato. A meia hora final é como se fosse as idéias
do Donald. A esperteza de Kaufman nesse sentido é notável (mostrar
a alteração de idéias em um roteiro), mas mal realizada,
pois por mais que seja sarcástico e crítico com relação
a banalidade das atuais produções hollywoodianas, isso não
impede que durante 30 minutos, assistissemos uma verdadeira junção
de clichês de filmes policiais (juntando a narrativa dos dois irmãos
com a do livro), atolado em banalidade. Aqui entra mais um ponto que reflete
o egocêntrismo de Kaufman, pois enquanto a idéia é só
sua e totalmente original incartilhado, tudo funciona bem - agora, quando entra
uma segunda cabeça em suas idéias, acaba derrapando em estupidez
e clichês. Ou seja, Kaufman é o gênio da autenticidade -
e, não tem receio de assumir isso, em muitos diálogos, ele discute
essa possível interpretação da platéia, e não
esconde que realmente é um gênio, nascisista, mestre da autenticidade.
Humildade zero, apesar dele ter credibilidade por caus a do sucesso de 1999,
acredito que nunca atingiu o status de gênio. Com uma história
promissora que se cumpre pela metade, "Adaptação" precisaria
de um outro folêgo para se tornar uma obra de qualidade. E esse "gás"
é encontrado em seu elenco consagrado, que merecidamente, vem sendo considerado
um dos melhores do ano. A veterana e considerada uma das melhores atrizes que
Hollywood já teve, Meryl Streep, brilha ao interpretar Susan Orlean -
a autora do livro que está sendo adaptado, que no final, tem uma séria
crise de personalidade, ótima atuação; por méritos
ganhou o Globo de Ouro de atriz coadjuvante e está entre as indicadas
ao Oscar na mesma categoria (bateu o recorde de indicações, e
se ganhar, será o terceiro, pois ela já se consagrou por "Kramer
Vs Kramer" e "A Escolha de Sofia"). Quem também levou
o Globo de Ouro e está como favorito ao Oscar é o ótimo
e nunca reconhecido Chris Cooper (ele já merecia indicações
ao Oscar de coadjuvante por "O Céu de Outubro" e "Beleza
Americana", mas foi ignorado), que brilha na pele do capiria de hist ória
trágica, que é a inspiração para Orlean escrever
o livro; Cooper dá vida com inovação a um capirão,
mas esperto. Agora, o filme é todo de Nicolas Cage, que também
foi indicado ao Oscar, só que de melhor ator, por dar vida oas gêmeos
Kaufman. O que melhor ajuda Cage, é que os irmãos são pessoas
completamente diferentes. Charlie é tímido, neurótico,
inibido (mas genial) - já Donald, é mais largadão, brincalhão
e se dá melhor com as mulheres (e é uma mente péssima no
roteiro). Aqui Cage pode demonstrar toda sua versatilidade, que não vinha
podendo mostrar já faz um bom tempo, pois se dedicou a divertir-se em
papéis improfundo (ponto para ele, pois nesses papéis sem grande
complexidade, trabalho em obras divertidas, tendo como a ponta a colina, o excelente
"A Outra Face", de John Woo). Sua presença na tela é
tão fluente com os dois irmãos, que quando Donald sai, mesmo vendo
Cage alí na pele de Charlie, sentimos falta daquela camarada sonhador
e espontaneo. Dificilmente Cage repetirá o feito obtido pela obra-prima
"Despedida em Las Vegas" na noite de entrega do Oscar, pois a concorrência
est á pesadíssima, com Daniel Day-Lewis cotadíssimo por
"Gangues de Nova York" (ambos estão excelentes em seus respectivos
filmes - mas Lewis ganha com uma certa vantagem). Charlie Kaufman e Spike Jonze
deram três anos para que fizesse a digestão do ótimo filme
que marcou a estréia na dupla. Com o nome lá em cima, conseguiram
reunir um elenco estupendo com pouco dinheiro (o orçamento foi de 19
milhões - sendo que, de normal, Cage recebe 20 milhões para trabalhar
em suas costumeiras super-produções), e apostando novamente numa
idéia original e estranhíssima, nos apresentaram este "Adaptação".
Em termos de nome, Kaufman vem se sobressaindo a Jonze (diretor que veio do
vídeo-clipe), e seu roteiro originalíssimo mas que consta como
adaptado (acho isso estranho, pois a idéia seria uma adaptação
do livro de Susan Orlean, mas na verdade, isso vira apenas um pedacinho do filme),
completa as quatro indicações obtidas pelo filme no Oscar 2003.
E um fato curioso: se "Adaptação" sair vencedor nesta
categoria, uma pessoa inexistente irá ganhar um Oscar, afinal, os créditos
são de Charlie e Donald Kaufman, sendo que este último é
uma criação para o filme. Out ra esquisite. E que venha o próximo
filme de Jonze/Kaufman, com uma idéia diferenciada. Mas, que esteja mais
para um "Quero ser John Malcovich", do que para um "Adaptação",
que é um bom filme, mas sua idéia poderia render frutos bem mais
maduros e atraentes.."