Fabrício Santos (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 8:
"Após assistirmos a "Abril Despedaçado",
temos o seguinte pensamento: "Afinal, como este filme não conseguiu
a indicação ao Oscar?". Tudo bem que ganhar seria outra história,
mas o filme é uma obra do cinema brasileiro(e estrangeiro, na visão
exterior).E digo mais: Walter Salles poderia sim estar na indicação
ao Oscar de Melhor Diretor, mas nesta categoria a Academia não olha para
todas as direções. O diretor consegue variar a tensão e
o humor das cenas com muita sutileza.
Após "Central do Brasil", Walter passou
a ter um reconhecimento maior no Brasil, mesmo sendo um filme regular. E agora
Salles nos entrega uma história interessantíssima e tensa, apresentando
as luzes e sombras de duas famílias amargadas por uma tradição
de mortes.
Rodrigo Santoro chega ao seu limite(até onde o conhecemos,
pois ninguém sabe até onde Santoro pode chegar)e faz a sua melhor
interpretação nas telas, vindo da também brilhante atuação
em "Bicho de Sete Cabeças"(agora é esperar por "Estação
Carandiru", onde também atuará).O ator exprime toda a essência
de seu personagem, fazendo com que possamos sentir através de seus olhos
os seus sentimentos. Santoro interpreta Tonho, o filho mais velho de uma das
famílias que está jurado de morte e em pouco tempo será
morto. Tonho então aproveita seus últimos dias para viver sua
vida intensamente e encontrar a felicidade que desconhecia. Mas ele não
acorda simplesmente dizendo: "Como vou morrer, a partir de hoje viverei
como nunca vivi antes!". É necessário que o público
perceba isso.
O jovem Ravi Ramos interpreta Pacu, o irmão caçula
de Tonho, e também merece destaque. É Ravi que carrega um pouco
da dose de humor do filme mesclado com a inteligência de um garoto, ou
"minino". Pena que o jovem ator tenha sido alvo das comparações
com Vinícius de Oliveira, o Josué de "Central do Brasil".
A fotografia é deslumbrante, deixando simples peças de metal com
um "que" de vida. Se analizarmos profundamente, a fotografia que tanto
exprime vida, acaba sendo fundamental na história, contra dizendo a sina
de morte do enredo e demonstrando que no pior dos destinos a vida continua presente.
Tudo isso deve-se ao entrosamento de Walter Salles com o diretor de fotografia,
Walter Carvalho, que frequentemente trabalham juntos .É magnífico!
A trilha sonora é um caso a parte. Comove e faz
sorrir, mas em algumas cenas parece não se encaixar no clima de "Abril
Despedaçado". A revelação ficou por conta de Flávia
Marco Antônio, a intérprete de Clara. Flávia demonstra durante
o longa seus dons cirsenses e nos impressiona com sua beleza exótica.
Já a atuação fica em "meio-termo", nem comprometendo
e nem surpreendendo.
O diretor Walter Salles teve a idéia de levar o
livro "Abril Despedaçado" aos cinemas há 3 anos, quando
o leu em meio ao lançamento de "Central do Brasil". Será
que ele imaginava que faria um filme melhor do que àquele que estava
lançando como seu grande triunfo? E que seria injustiçado pela
Academia do Oscar?
É...são casos para se pensar. E principalmente para a Academia
pensar!"