Uma Seleção de Atuações - Parte 1

por Francisco Russo


21/03/2010 0

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Existem interpretações e interpretações. As boas podem salvar um filme de ir pro buraco. As ruins invariavelmente deixam uma produção bomba ainda pior do que ela já é. Até um pé de agrião sabe disso. Mas há também um terceiro tipo de performance. Aquela quando o ator é iluminado por algo (deuses, entidades, discos voadores... qualquer palpite tá valendo) e se entrega ao papel de tal forma que não há mais o interprete, apenas o personagem. Para um bom ator dar vida a um ser imaginário não é tão difícil quanto parece. O roteiro dá a direção, o diretor o tom, a imaginação e a técnica preenchem o resto. Agora, interpretar alguém que de fato existiu é outro papo. É mais ou menos como você entrar numa roupa vários números menores - ou maiores - e agir com a maior naturalidade do mundo. Multiplique a dificuldade à décima potência quando o personagem foi uma personalidade. Fazer isso e ser convincente, não é tarefa para qualquer um. É só para os craques de fato. A seguir foram escalados dez desses momentos mediúnicos do cinema. Dez interpretações titulares absolutas. Bem... vocês sabem como é complicado esse negócio de listas. Discordando é só mandar a sua sugestão. Quem sabe ela não aparece na próxima convocação? 1) Val Kilmer interpretando Jim Morrison em The Doors (1991) A dona crítica achou o filme de Oliver Stone exagerado e com licenças poéticas demais. Os remanescentes do conjunto reclamaram que, sendo um filme sobre a banda, eles apareceram pouco. Mas ninguém reclamou da performance dionisíaca de Val Kilmer. O cara baixou tão bem o cabloco do rocker-poeta-beatnik que chegou a assustar os Doors verdadeiros (ser Kilmer a cara de Morrison também ajudou). Muita gente que mal tinha ouvido falar do grupo virou fã de carteirinha depois do filme, e há quem diga que a trilha sonora foi toda cantada pelo próprio Kilmer, tamanha era a inspiração do cara. Será? Como diria dona Milú... Mistério... 2) Ben Kingsley como Mahatma Ghandi em Ghandi (1982) Ghandi é mesmo uma produção superlativa, talvez o último dos grandes épicos. Só a cena do funeral do líder indiano fez uso de nada menos que 300 mil figurantes, todos de carne e osso, sem nenhum truque de multiplicação digital. Porém o mais impressionante do filme é de fato a caracterização impecável de sir Ben Kingsley, que conseguiu emular com perfeição até a voz do Mahatma. O ator chegou a fazer algumas transmissões pela rádio indiana e todos pensaram ser uma gravação antiga do verdadeiro Ghandi. Acabou ganhando o Oscar de melhor ator (merecia ter ganhado dois). Kingsley foi tão bem sucedido em dar vida ao lendário mártir que nunca mais ganhou um papel à altura de seu enorme talento. Estigmatizado, é até hoje conhecido como o "Eterno Ghandi". 3) Jim Carrey representando (mesmo!) Andy Kaufman em O Mundo de Andy (1999) É quase uma heresia que um sujeito que começou fazendo filmes como Debi & Lóide e Ace Ventura pudesse estar nessa, ou em qualquer outra lista. Mas a verdade é que o ator conseguiu fazer o impossível, trouxe o frenético Andy Kaufman do mundo dos mortos. Carrey conseguiu copiar com precisão absoluta não só os comichões do comediante do célebre Saturday Night Live, mas também toda sua coleção de tipos e personagens esquizofrênicos. Carrey deu vida tanto ao criador quanto às criaturas. Quem diria que debaixo daquelas caretas ridículas se escondia um ator com A maiúsculo? 4) Bruno Granz encarnando Adolf Hitler em A Queda! - As últimas horas de Hitler (2004) Se você já viu Hitler em documentários ou nos filmes de Leni Riefenstahl (a cineasta oficial do partido nazista) não há como não se impressionar com a interpretação do veterano ator suíço Bruno Granz em A Queda! O corpo curvado, o olhar ao mesmo tempo magnético e alucinado, a resignação por uma guerra já perdida, os repentinos ataques de fúria do ditador... Está tudo lá, 60 anos depois. O diretor Oliver Hirschbiegel se sentiu tão afetado pela performance do ator que após cada sessão de direção tinha que tomar vários banhos para se livrar daquela influência maligna. Já Granz diria "Tive que compreender o mal e o demoníaco para interpretá-lo" Alguém duvida que ele conseguiu? 5) Robert Downey Jr . como Charles Chaplin em Chaplin (1992) É mesmo uma pena que o hoje Robert Downey Jr. seja conhecido menos por seu talento e mais por suas prisões semanais por porte de drogas ou dirigir chapado. Pois em 1982 Downey Jr, numa atuação irretocável, deu vida a ninguém menos que o maior nome do cinema de todos os tempos; Charles Chaplin. Da juventude à velhice, Downey foi tão Chaplin quanto o próprio criador do inesquecível Carlitos. Só mesmo um grande diretor - o hiperbólico Richard Attenborough, de Ghandi - e um ator no auge da inspiração para criarem uma das grandes cinebiografias da história da sétima arte. A cena em que Chaplin ganha um Oscar honorário é de tirar lágrimas até do mais insensível dos rochedos.