Benjamin

por Roberto Cunha

UM ACERTO DE CONTAS
20/03/2010 0

Benjamin
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Crítica publicada originalmente em 2004.

Uma das melhores maneiras de você avaliar a qualidade de um filme pode estar no seu começo. O papa dos roteiros de Hollywood Syd Field orienta que os 10 primeiros minutos são cruciais para você saber se a produção é boa ou não. E isso é realmente uma verdade. Mas os créditos iniciais também podem dar importantes dicas para o espectador, porque denota esmero na produção, e isso já é um bom sinal.

Benjamim começa bem. Os créditos aplicados sobre uma imagem um tanto quanto distorcida são legais, simpáticos e mostram que a filha de Fábio Jr. e Glória Pires já deve estar de olho na carreira internacional, pois seu nome não tem acento ortográfico. E a verdade precisa ser dita: Cleo Pires trabalhou bem no filme de Monique Gardenberg e mereceu o destaque obtido.

Contudo, o merchandising escancarado logo na cena inicial - com cerca de um minuto de duração - de uma companhia de ônibus quase coloca tudo a perder. Foi um acinte digno de produções brasileiras afeitas a este tipo de caça-níqueis. Olha a CPI dos bingos aí, gente! Filme rolando e você descobre que Paulo José estava contracenando num comercial e solta uma pérola para o diretor interpretado por Rodolfo Botino: "Sou modelo! Não sou ator!".

Dado o recado para a turminha que ostenta o título de modelo, atriz/ator e - agora - ex-big brother, o filme começa a dar indícios da trama e aqui cabe uma observação: a utilização constante de flashbacks, que acontecerá ao longo da história. Mesmo que usando um recurso interessante que é misturar passado e presente de maneira ágil, dando uma textura diferente para as imagens, causa certo desconforto algumas dessas passagens e até confunde um pouco.

Mas o filme tem história. Tem começo, meio e fim. E o pessoal da poltrona deve ficar intrigado com o mistério que envolve Benjamim (Paulo José/Danton Mello) e Ariela (Cleo Pires). E ele só se esclarece misturando presente com o passado. Só assim é possível entender a trama muito bem urdida pelo autor. Vale lembrar que a diretora criou mecanismos interessantes ao iniciar os flashbacks com cenas paradas como numa fotografia, já que Benjamim era modelo de comerciais.

O humor também se faz presente em pequenas doses como na frase irônica de Benjamim sobre a "profissão" modelo/ator, na sua apresentação de documentos no restaurante, nas falas de Rodolfo Botino como um diretor "exigente" e na hora que o Benjamim jovem (Danton Mello) descobre que é corno através de uma sonora gargalhada.

Como não poderia deixar de acontecer, existem citações e algumas merecem destaque como o cinema Paissandu, o passado de repressão no Brasil, Wando cantando a indefectível "Eu quero me enrolar..." e uma cena de nudez discreta (todas são assim) ao som de "Ne Me Quitte Pas".

Vale o registro de que o roteiro não previa a guerra da loiras geladas e Zeca "Calotinho" aparece para apoiar um político intrepretado por Chico Diaz, que profere uma frase antológica sobre as descobertas de um homem em relação ao seu passado: "O pior é ser filho da puta". E Benjamim descobrirá muito mais. Com Benjamim o programa está garantido e o cinema nacional descansa em paz.