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Tirando o Mofo
por Saulo Sisnado

Who's Afraid of the Big Bad Wolf?

Quando assisti pela primeira vez Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, há alguns anos, fiquei extasiado. Era madrugada e quando começou a passar os créditos finais, rebobinei a fita e assisti de novo. A partir desse momento tirei os dois filmes de Vivien Leigh que estavam empatados no topo da lista dos melhores (Uma Rua Chamada Pecado e ...E o vento Levou) e Liz Taylor roubou o primeiro lugar do meu podium. No dia seguinte, fui a uma loja de livros usados e comprei quatro romances da escritora inglesa Virginia Woolf. Detestei dois... e descobri que a Virginia Woolf de Virginia Woolf difere muito da Virginia Woolf de Edward Albee (autor da peça que deu origem ao filme).

A verdade é que muitas são as teorias que tentam explicar o porquê do título e porque ao final do filme George pergunta a Martha "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?" e ela responde "eu tenho", aceitando assim a dura realidade de sua existência. Eu poderia passar o resto do texto tentando explicar o que isso significa, sendo que metade das teorias é idiossincrática e muda a cada vez que eu assisto ao filme. De forma que é mais interessante que cada um veja e tire suas próprias conclusões sobre esta cena... e muitas outras.

É teatro filmado. Toda a ação de passa, praticamente, em uma sala de estar e tudo se revela através de diálogos. Mas seria uma tolice dizer que a trama é simples, Edward Albee merece todo o sucesso que a peça ainda alcança até hoje, pois o texto é uma sucessão constante de clímax. Não é um filme que culmina num final apoteótico (apesar do final assim o ser), mas achamos a cada minuto que o filme já está em sua apoteose final, tão brilhante é o texto. Na trama, os personagens não dialogam como pessoas comuns, eles jogam. Um permanente jogo de amor e ódio iniciado por George e Martha (Richard Burton e Liz Taylor) e logo abraçado pelo outro casal Nick e Honey (George Seagal e Sandy Dennis). Flertes constantes, humilhações, fantasias, loucura, violência. Os personagens se agridem a todo minuto e tentam de todo modo destruir a pessoa que mais amam, exatamente por amá-las.

Essa teatralidade funciona graças a Mike Nichols, que dirigiu um filme que se passa numa sala, com a experiência que adquirira nos palcos como diretor teatral. A câmera se movimenta quando tem de se movimentar e fica estática e angustiante em outros momentos. Mas Quem Tem Medo deVirginia Woolf? sem dúvida é um filme de atores, o texto é o sonho de todo ator que quer mostrar seu talento, e todos conseguiram (todos os quatro foram indicados ao Oscar). A personalidade de todos é tão intensa que é impossível descrevê-los. Liz Taylor tem seguramente a melhor interpretação de sua carreira, com apenas 34 anos, Liz conseguiu interpretar uma mulher de 52 anos, bêbada, infeliz, amarga e cômica. O humor pontua toda a obra e o filme pode ser encarado como uma comédia de humor negro sobre a infelicidade da vida a dois.

A infelicidade é uma coisa que envolve todos os personagens. Mas eles são exageradamente hipócritas e mentem sem parar, a ponto de inventarem uma realidade para se autoprotegerem. E sempre um está tentando empurrar a culpa para o outro.

Estão recheados de segredos que vão sendo revelados aos poucos. Cada vez mais eles tentam se defender e fugir de suas angústias, mas a hipocrisia na qual eles se trancavam não os comporta mais, depois de jogos, bebidas e revelações.

No fim, como não poderia deixar de ser, todos estão mudados (numa boa peça nunca os personagens terminam da mesma forma que começaram). Os segredos já foram revelados e eles não têm mais com que se defender. Tudo é uma sensação de desconforto. Ao mesmo tempo em que eles descobrem que apenas se possuem e que todas as mentiras foram criadas para que permanecessem inseparáveis, posto que se amam. Portanto, a única resposta possível para pergunta de George à Martha "Quem tem medo de Virginia Woolf?" é mesmo "Eu tenho, George, eu tenho".
 
Saiba mais sobre "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?".

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