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Tirando o Mofo
por Saulo Sisnado

O Dom das Trevas

Há muitas teorias sobre a origem dos vampiros. Para alguns, estes mortos-vivos são descendentes de Caim, pois versa a lenda que o filho de Adão foi condenado por Deus a vagar pelo mundo das sombras, castigado com o dom da imortalidade e alimentando-se de sangue humano. Para outros, os vampiros surgiram quando a deusa Ísis (ou Akasha) foi possuída por um demônio. Há ainda os que acreditam que os vampiros são descendentes do Rei Vlad, o Empalador, que se revoltou contra a Igreja Católica e desafiou Deus com sua própria imortalidade. Como não poderia deixar de ser, existem também os céticos chatos que dizem que tudo é apenas papo-furado.

Bem, não vamos discutir se os filhos de Caim existem ou não, se são astros de rock ou se moram em castelos na Transilvânia. Mas devemos admitir que, de todos os seres fantásticos do imaginário popular que entraram para o cinema, nenhum consegue ser mais sexy e encantador que o vampiro.

O livro de Bram Stoker, Drácula, foi adaptado pela primeira vez para o cinema pelas mãos do cineasta alemão F.W. Murnau, que dirigiu em 1922 o clássico expressionista Nosferatu. No papel do conde está o bizarro Max Schreck, que era esquisito até mesmo na vida real. Na época das filmagens, o diretor Murnau impediu que qualquer dos envolvidos no filme visse Max sem maquiagem ou durante o dia. Esse fato gerou em 2000 o criativo A Sombra do Vampiro, com Williem Dafoe impecável interpretando o ator-vampiro. Em 1979, Nosferatu foi refilmado por Werner Herzog, com Klaus Kinski no papel do vampiro e Isabelle Adjani fazendo a vítima (ambos em interpretações inspiradas). A versão de Herzog também é clássica e mostra novamente um vampiro angustiante e sofredor.

No começo da década de 30, Drácula resolveu falar. A voz poderosa e recheada de sotaque do ator húngaro Bela Lugosi deu alma ao vampiro pomposo que usa capa preta e brilhantina no cabelo. Hoje tudo isso parece um clichê fora de moda, mas na época foi uma tremenda novidade e o filme fez grande sucesso. Os anos passaram e Roman Polanski resolveu brincar com o gênero no divertido A Dança dos Vampiros, estrelado por sua então esposa Sharon Tate. Mas a mistura de comédia e vampiros não foi idéia privativa de Polanski, em 1979 o Conde Drácula foi expulso da Transilvânia e se mudou para Nova York em busca de uma modelo capa de revista no hilário Amor à Primeira Mordida.

Finalmente, no início dos anos 80 o diretor Tony Scott nos apresentou o mais sexy casal de vampiros da história, Catherine Deneuve e David Bowie. Sem dúvida Fome de Viver é um dos melhores filmes de terror já feitos, uma obra cultuadíssima. Um filme extremamente chique (como os filmes de vampiro devem ser), recheado de sangue e erotismo - Deneuve e Susan Sarandon protagonizam uma das mais comentadas cenas de sexo lésbico. Dois anos depois, Chris Sarandon interpretou um belíssimo vampiro em A Hora do Espanto. Até hoje nenhum descendente de Ísis conseguiu superar seu sex-appeal, Chris Sarandon (ex-marido de Susan Sarandon) povoou por muito tempo os sonhos (ou seriam pesadelos?) eróticos de moças e rapazes (afinal de contas, os vampiros são assexuados). Quatro anos se passaram e Julie Carmen decidiu se vingar da morte do irmão, estrelando A Hora do Espanto 2. A vampira é tão envolvente quanto Chris Sarandon e o filme mantém o ritmo, os sustos e as piadas do antecessor. Para não deixar comentar nenhum, em 1987 Joel Schumacher dirigiu o despretensioso Os Garotos Perdidos, que já repetiu inúmeras vezes na Sessão da Tarde.

Mas quando se fala em vampiros sempre pensamos em Drácula, que apesar de ter sido diversas vezes adaptado ainda precisava de uma versão que o imortalizasse, posto que a versão de 1931 era muito mais fiel à peça de teatro que propriamente ao livro. Em 1992, Francis Ford Coppola dirigiu Drácula de Bram Stoker, filme impecável e milimetricamente fiel à obra. Um prólogo arrebatador e uma deslumbrante atuação de Gary Oldman.

Nessa década ainda vieram Um Drink no Inferno, Vampiros de John Carpenter, sem contar na novela Global VAMP e no seriado Buffy - A Caça Vampiros (que, pasmem, já foi indicado ao Emmy de melhor série dramática). Mas a grande colaboração da década para os apaixonados por vampiros foi a adaptação do célebre livro de Anne Rice, Entrevista com o Vampiro. O romance de Rice conseguiu ser mais contundente e apaixonante que o clássico de Bram Stoker. O filme manteve-se fiel ao espírito da obra: as dependências cruéis, as paixões, os dilaceramentos internos, o rasgadamente romântico e a declaração de amor à vida. Mas o filme suavizou o erotismo de Anne Rice, o que era de se esperar tendo Tom Cruise como Lestat.

O século 21 começou com duas obras fraquinhas sobre o tema, Drácula 2000 e A Rainha dos Condenados. Mas sabemos que os vampiros permanecerão movimentando o mundo do cinema, pois ainda há muito que se explorar desses seres fantásticos que deixaram de ser crenças e se tornaram arquétipos de nosso próprio ser. Que venham mais filmes de vampiros para que neles reconheçamos nossa própria voz.
 
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