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Tirando o Mofo
por Saulo Sisnado

Top Gun é McDonald's: Amo Muito Tudo Isso!

Quando a crítica americana Pauline Kael comentou sobre o filme de Taylor Hackford, A Força do Destino, disse: "é lixo, mas lixo numa motocicleta". Para escrever sobre Ases Indomáveis, decidi parafraseá-la dizendo: é lixo, mas lixo num jato F-15.

Muitos dizem que este filme de Tony Scott (que três anos antes fora responsável pelo cultuadíssimo "Fome de Viver") é apenas uma versão aérea de Flashdance. Os intelectuais dizem que o filme é a McDonald da sétima arte, a escória do cinema. Um enlatado recheado com queijo cheddar e Kelly McGillis. Mas me pergunto: qual o mandamento divino que diz que o enlatado não pode ter qualidade?

Top Gun
pode não ter interpretações grandiosas e diálogos profundos como de um filme de Welles ('Rosebud' não é digo vez alguma). Mas funciona! Na verdade Ases Indomáveis tem um grande mérito: o roteiro. Como se estivessem inspirados em Casablanca, os escritores conseguiram agradar gregos e troianos: temos seqüências de ação 'eletrizantes' (aproveito para desenterrar uma gíria dos anos 80), uma história de amor que verdadeiramente emplaca, um pouco de drama (o rapaz não tem pai, perde o amigo do peito, blá-blá-blá), uma pitada de comédia (Meg Ryan em comecinho de carreira tem ótimos momentos) e uma música perereca. Pronto! A receita do sucesso está na panela, só falta assar.

Se olharmos sem preconceito para o filme, veremos que não é um filme ruim. Conta a história de um baixinho exibido, Pete Mitchell, um Bogart dos anos 80 (que trocou o sobretudo por uma jaqueta e o pianista Sam pelo colega Goose). Ele é mandado para uma escola onde será treinado para ser um dos melhores pilotos do mundo. Lá, como já era de se esperar, Pete (para os íntimos: Maverick) apaixona-se pela professora interpretada por Kelly McGillis, grandona, linda e desengonçada como Ingrid Bergman. E poucas vezes um romance empolgou tanto quanto aqui.

Assisti ao filme dia desses (já fazia 10 anos da última vez) e confesso que fiquei torcendo por eles e, a cada cena, eu resmungava: "Que é isso? Não posso estar gostando deste filme... Isto aqui é Top Gun, ora bolas!"

Bom, não houve jeito. Terminou o filme e tive que dar o braço a torcer. Funciona! E embora o filme seja gritantemente "oitenta", ele não chega a ser datado. As músicas, roupas e cabelos se encaixam aqui muito melhor que em Flashdance, por exemplo.

A chatíssima "Take My Breath Away", como que por espiritismo, consegue se encaixar dentro do filme. É, porque escutá-la fora do contexto é um verdadeiro suplício.

Falhas o filme tem um bocado: as interpretações são bem fraquinhas (se Tom Cruise já não é lá essas coisas aos 40, imagine aos 24 anos), os diálogos são pífios, algumas cenas de ação são compridas, os closes nos corpos desnudos são descartáveis, as cenas recheadas de sombras e silhuetas muito menos funcionam e, SEM DÚVIDA, a 'bichice' dos pilotos devia ter sido colocada em escanteio (a tensão entre os pilotos é tanta e Val Kilmer está tão afetado que às vezes o vestiário parece mais uma sauna gay).

Mas nada disso importa quando Kelly McGillis entra em cena. Ela brilha imensamente! Em realidade, não sentiríamos falta dos jatos MIG, F-14, F-15 ou qualquer outro se o filme se decidisse pelo romance e descartasse todo o resto. A cena de sexo, breguíssima, e toda ensombrada é mais 'chocante' (outra gíria da época) que qualquer caça voando.

Top Gun não é um filme que deixa mensagens ou nos faz pensar. É um filme pra divertir e tem como objetivo vender-se. Mas... como diz Humphrey Bogart: pra quê mensagem se existe o correio?
 
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