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Pecado
ou Desejo?
Por algum motivo os distribuidores
brasileiros decidiram chamar A STREETCAR NAMED DESIRE
(Um bonde chamado desejo) de "Uma rua chamada pecado".
Dizem que fizeram isso para despistar a censura da época,
amenizando a força do título. Qual seja o motivo, nobre ou
não, a verdade é que esse nome é bastante inadequado. O texto
do dramaturgo americano Tennessee Williams em
nenhum momento fala de pecado, muito pelo contrário, a história
é composta de tão desconcertante amoralidade que a idéia de
pecado nos passa bem longe da cabeça.
Quando vemos Marlon Brando
vivendo o machista Stanley Kowalsky, com sua
beleza estonteantemente rude e seus quadris grandes, sabemos
que a última coisa que Tennessee queria que passasse
pela cabeça dos espectadores era a idéia do pecado; ele fala
exclusivamente sobre desejo... o mais puro e ardente desejo.
Elia Kazan, o diretor do filme, levou tão a sério a
obsessão do autor (talvez acreditasse nela também) que transmitiu
muita segurança, e quando Brando passa diante das câmeras
com sua camisa umedecida pelo suor é quase possível sentir
o odor de Stanley Kowalsky nos entrando pelas
narinas, nos repudiando e nos atraindo na mesma proporção.
Stanley
é um tipo de pessoa que exerce seu poder de atrair, exatamente
por ser excessivamente mau; ele agride e fere as pessoas,
tanto fisicamente quanto em suas dignidades, com tal falta
de peso na consciência que poderíamos odiá-lo, se não estivéssemos
encantados.
Mas nem só de Stanley vive
essa rua chamada Pecado. Há, ainda, Blanche Dubois
(Vivien Leigh), que como ela mesma diz, é "como
um pomar na primavera". Blanche é o outro pólo
nessa sinuca cruel; ela é a alma delicada de uma dama decadente,
enquanto o cunhado Stanley é a carne e o corpo de um
homem que sabe utilizar o que tem.
E, sendo a alma, Blanche
sofre nesse mundo de carnes. Vendo Vivien Leigh
na tela temos a visão de até que ponto uma pessoa pode afundar
no poço cavado pelo preconceito. A Blanche Dubois
é uma bela mulher destruída e corrompida pela sociedade que
a cerca, e temos certeza que foram seres como Stanley
Kowalsky que a destruíram, e pior, também temos certeza
que foram seres como nós mesmos que corroeram essa bela dama
que tudo o que sempre quis na vida foi "magia".
Blanche
Dubois passeia pela história, em pânico, buscando apenas
um pouco de "corpo" para preencher seu coração vazio.
E quando Mitch, amigo de Stanley, diz que também
precisa de alguém, Vivien Leigh nos comove e
nos faz ter a fé de que aquela alma sofredora foi salva quando
ela nos diz: "Às vezes... Deus se mostra tão prontamente".
Ledo engano; o destino trata logo
de destruir o resto de sua dignidade, e quando os segredos
que marcaram o seu passado começam a vir à tona, a sociedade
moralista trata logo de exterminá-la. Mas Blanche não
aceita a derrota, mantém seus valores elegantes, se tranca
internamente numa loucura agonizante e passa a viver num mundo
melhor, onde é tratada com respeito; o mundo de polimentos,
riqueza e magia que sempre sonhou.
"Uma Rua Chamada Pecado"
é tudo isso, um filme extremamente pesado e denso. Um filme
que prova que cinema não é apenas entretenimento, pois ao
final, tão envolvidos estamos com tantas angústias (que também
são nossas), que quase nos arrependemos de tê-lo assistido,
pois nos questionamos o tempo todo se somos Stanley
ou Blanche, se somos a carne ou a alma.
Elia
Kazan,
que dirigiu a peça na Broadway, filmou como se fosse teatro,
não disfarçando a origem do texto. Mas quem realmente se importa
com a teatralidade que o diretor deixou envolver esta obra,
quando estamos diante da maior interpretação da história do
cinema?
Tão marcante é a personagem de
Vivien Leigh, que antes, todas as vezes que se falava
nela, nos vinha à mente sua face meiga com olhos cravejados
de lágrimas e exclamando "Amanhã é outro dia"
em ...E o vento Levou. Mas depois de "Uma Rua Chamada
Pecado" quando ouvimos falar sobre Vivien Leigh,
nos vem à mente uma mulher acabada e triste, que desliza amargamente
pela tela e nos presenteia com um: "Seja o senhor
quem for... eu sempre dependi da bondade de desconhecidos".
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