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Tirando o Mofo
por Saulo Sisnado

Reward, Forward e Replay


Às vezes comentar filmes clássicos pode ser uma atividade bastante enfadonha, ainda mais quando quem o faz é o possuidor de uma perigosa língua ferina. Adoro falar mal! Ocorre que para a maioria das pessoas, quando um filme envelhece, ele parece ganhar uma certa dignidade e algumas grandes bobagens tornam-se clássicos indiscutíveis e ninguém mais pode dizer que não presta. Ninguém aceita, por exemplo, que algum filme de Alfred Hitchcock seja menos que uma obra-prima e parece que Elizabeth Taylor só fez filmes maravilhosos. Mas como explicar então Agonia de Amor, filme que o próprio Hitchcock renegava? Como engolir, também, o folhetinesco Disque Butterfield 8 (que deu um Oscar a Sra. Taylor), não rir no terrível No Caminho dos Elefantes ou dormir no espetaculoso Cleópatra?

Ora, nem todo filme velho é clássico. Se pegarmos o dicionário, encontraremos que clássico significa "da melhor qualidade, exemplar". Portanto, seja novo ou velho, se um filme é excelente ele é um clássico! Caindo nesse tabu de que filme antigo sempre é excelente, muitos críticos torcem o nariz quando os estúdios anunciam que algum filme antigo será refilmado. Mas será que os remakes são sempre tão terríveis assim?

O pobre Gus Van Sant quase apanhou dos cinéfilos do mundo inteiro quando lançou o seu Psicose. No entanto, como uma obra que segue à risca o original, copiando os diálogos, os enquadramentos, os tempos, os silêncios e a música pode ser uma bomba? Bem verdade que, nas poucas liberdades que tomou, Van Sant falhou feiamente. Vince Vaughn não precisava ser tão efeminado e Julianne Moore quase uma lésbica. Todavia, ainda é um filme divertidíssimo, que não merece toda a má fama. A verdade é que ninguém admite qualquer refilmagem de filmes de Hitchcock. O enfadonho filme Disque M para Matar, que nada mais era que um soporífero teatro filmado, ganhou uma versão muito mais interessante em 1998. Um Crime Perfeito disfarça com mais eficiência a origem teatral do texto, possui elenco masculino bem superior, a trama é mais cheia de reviravoltas e Gwyneth Paltrow é tão bela e sofisticada como Grace Kelly.

Aliás, Gwyneth já tinha se arriscado noutro remake. Desta vez, o diretor Alfonso Cuarón pegou o moralista texto de Charles Dickens, Grandes Esperanças, e construiu uma obra colorida, sensual, moderna e com ótima trilha sonora. Muito mais divertida que a versão clássica de 1946, dirigida por David Lean, que em nenhum momento possui algo comparado à Anne Bancroft dançando Besame Mucho ou Gwyneth Paltrow posando nua para Ethan Hawke ao som da violenta música do Pulp.

Ainda nas adaptações literárias, O Conde de Monte Cristo ganhou no ano passado uma bela e movimentada adaptação, cheio de cenas grandiosas e um roteiro mais direcionado à diversão; as histórias de Alexandre Dumas sempre foram escritas para entreter acima de tudo. A versão anterior, protagonizada por Richard Chamberlain, era tão pobrezinha e tão fraquinha que dava até dó. O Talentoso Ripley, de Anthony Minghella, apesar de se perder um pouco na reta final ainda consegue ser muito superior à versão de René Clement protagonizada por Alain Delon. O filme de Minghella toma mais liberdades na adaptação do livro de Patricia Highsmith, O Sol por Testemunha, mas tem melhor fotografia, melhor música, mais suspense e melhor elenco secundário. No antigo, o filme era carregado nas costas por Alain Delon.

Em meados da década de 90 todos caíram de pau em cima de Adrian Lyne e detonaram o seu Lolita. Quanta ousadia adaptar uma obra já filmada pelo magnânimo Stanley Kubrick! Desculpem-me os aficionados por Kubrick, mas seu Lolita está longe de circular entre suas obras-primas. Shelley Winters está ótima como a mãe, todavia James Mason é exageradamente seboso e canastrão como o professor Humbert e Sue Lyon como Lolita também deixa a desejar. A versão mais nova tem uma Lolita bem mais sexuada, embora Dominique Swain seja um pouco esganiçada demais. Melanie Griffth, sempre ótima atriz, e Jeremy Irons como Humbert é mais carismático. Mesmo que esse carisma distancie um pouco da visão de Nabocov, autor do celebrado romance, que pensou num Humbert nojento e repugnante, é inegável o interessante contra-senso de nos identificarmos tanto com o sedutor da menina. A direção de Lyne nos mostra cenas plasticamente bem construídas, bela música, fotografia impecável e, ainda, uma certeira inspiração em Morte em Veneza, de Luchino Visconti.

Apesar de possuir um belo roteiro e uma ótima interpretação de Charlton Heston, assistir a O Planeta dos Macacos é por vezes risível. Efeitos capengas e cenários estranhos. A versão atualizada de Tim Burton é mais sombria, movimentada, engraçada e os macacos são bem mais reais. Lamenta-se apenas aquele final idiota, que fica anos-luz do ótimo encerramento do antecessor. Mas até hoje alguém admitiu que a nova versão é melhor?

Alguns remakes, no entanto, são indiscutivelmente superiores. Francis Ford Coppola deu ao seu Drácula mais atmosfera, mais ritmo e mais emoção que Tod Bownwing em 1931. Esta versão era excessivamente teatral, com utilização de cenários absurdamente falsos e sustentava-se exclusivamente na atuação de Bela Lugosi. Mas a interpretação de Gary Oldman é igualmente apaixonante. A adaptação recente do livro de Graham Greene, Fim de Caso, também é superior à versão com Deborah Kerr. Neil Jordan captou o tom folhetinesco do romance, deixou de lado todas as questões filosóficas sobre a existência de Deus e fez um filme denso, emocionante (mesmo que caindo em alguns clichês) e embasado nas interpretações maravilhosas de Julianne Moore e Ralph Fiennes e na linda fotografia.

Concordo, no entanto, que muitos remakes são catastróficos e deveriam não ter saído do campo das idéias. Cidade dos Anjos tentou amaciar o difícil Asas do Desejo, de Win Wenders, mas virou um filme açucarado com uma sofrível interpretação de Nicolas Cage (ele está mesmo péssimo!). Onze Homens e um Segredo não chegava a lugar nenhum quando foi estrelado pelo Rat Pack e, décadas depois, continuou perdido em seus objetivos e desperdiçou um elenco milionário. O filme de Sidney Pollack, Sabrina, também poderia ser esquecido, Julia Ormond não tem um terço do carisma de Audrey Hepburn. Quanto ao A Ilha do Dr. Moreau... Bem, esse é tenebroso do começo ao final.

Enfim, devemos gostar dos filmes não porque eles são novos ou velhos, e sim por serem são bons ou ruins. Sempre ouço pessoas falando que não assistem filmes antigos, porque são chatos. Mas quantos filmes chatos, por exemplo, foram feitos no ano passado? Existem filmes antigos muito ruins, mas existem outros tantos que são indispensáveis. Existem filmes novos terríveis e outros tão apaixonantes que não sabemos como vivemos tanto tempo sem eles. Existem remakes péssimos e outros maravilhosos. Deixemos de lado todos os preconceitos e estejamos receptivos ao novo e ao velho... ao antigo e ao recauchutado.
 
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