O
Pecado Original
Os
hipócritas e puros que me perdoem, mas não tem
um tema que me fascine mais que o sexo. Sou fã de carteirinha
do cinema europeu, exatamente pela falta de pudor que geralmente
envolve as produções vindas daquele continente.
A
verdade é que o sexo tem na 7ª arte a mesma importância
que tem no mundo da religião: é o pecado original.
O cinema, seguramente, não existiria se não
existisse o sexo. O cinema sempre mexeu com o desejo sexual
dos espectadores e sempre criou divas e galãs para
povoar os nossos sonhos eróticos.
O
problema é que o cinema americano gosta de mascarar
o sexo, gosta sempre de abordá-lo envolvendo-o em mitos
e tabus. Por isso, quando um filme americano desmente essa
regra, merece ser ovacionado. Refiro-me a um dos melhores
filmes de John Huston, O Pecado de Todos Nós,
que em inglês tem o estranho título de Reflections
in a Golden Eye. Uma obra totalmente dedicada ao sexo.
Baseando-se
no romance polêmico de Carson McCullers, durante
108 min não se fala de outra coisa senão sexo.
E, então, temos a noção de o quanto esse
assunto pode ser fascinante. Na historia, entretanto, nem
sempre o assunto é tratado como boa coisa, pois sendo
exageradamente influenciada pela 'doutrina' Freud,
McCullers deixa claro que embora ninguém possa
ter a felicidade sem o sexo, nada mais certeiro que ele para
levar à loucura ou à infelicidade. Todos os
problemas dos personagens têm ligação
direta com o ato sexual. Quando de início sabemos quem
alguém vai morrer, já sabemos que será
por causa do sexo... o sexo leva a mortes.
Mesmo
tomando o sexo como motivador de tragédias, Huston
mostra que não há como fugir. Não há
como resistir aos levianos flertes de Liz Taylor ou
à vigorosidade do soldado que parece não se
dar conta do poder sexual que possui.
A
personalidade dos personagens é sempre mostrada através
de um prisma sexual, mas com bastante profundidade. O que
importa é o aspecto sexual do caráter, Marlon
Brando é o major homossexual e reprimido, Elizabeth
Taylor é sua esposa adúltera e fogosa, Julie
Harris é a louca que corta os mamilos com uma tesoura
de jardim e Brian Keith é seu esposo.
Liz
Taylor e Marlon Brando foram verdadeiramente corajosos,
mesmo sendo dirigidos por John Huston, é notável
a ousadia de ambos. Taylor está perfeita (mais
uma vez) como a vulgar e impetuosa esposa, aparece completamente
nua em determinada passagem do filme e, em outra, dá
uma surra de chicote em Marlon Brando (e temos a impressão
que ele realmente foi ao êxtase com essa surra).
Embora
já estando acima do peso, o major ainda é sexy
e nos perturba a cada momento com sua homossexualidade reprimida.
Nada mais terrível do que ter de esconder um desejo
por homens quando se vive em um quartel infestado por soldados
másculos e belos. Mas ele tem desejo especial por um
soldado que cavalga nu. E é quase palpável o
conflito de Brando ao ver o viril homem nu sobre o
cavalo.
O
filme continua sendo ousado mesmo para os dias de hoje (não
confundam ousadia com vulgaridade). A única coisa que
temos a lamentar é que também é uma obra
Freudiana demais. E hoje, alguns simbolismos já estão
ultrapassados ou se tornaram bregas. Mas nos anos 60, no auge
do culto a Freud, certas frases do filme levavam ao
êxtase alguns intelectuais. Mesmo assim não chega
a ser datado.
O
Pecado de Todos Nós é mais que um filme,
chega a ser uma obra-prima necessária. A oportunidade
única de ver Elizabeth Taylor, Marlon Brando
e John Huston (a mulher mais bela do cinema, o homem
mais sexy e o maior diretor de todos) juntos e em perfeita
harmonia.
Como
não poderia deixar de ser, O Pecado de Todos Nós
foi condenado pela igreja Católica. Quem se importa? |