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Uma
Bela Xaropada
Um tempo
destes, os cinéfilos mais antenados muito ouviram falar
do diretor austríaco Douglas Sirk. Posto que, no primeiro
semestre, o badaladíssimo filme de Todd Haynes, Longe
do Paraíso, pretendeu ser um melodrama no
formato das grandes obras daquele diretor.
Os que
foram para o cinema sem conhecer qualquer dos filmes do homenageado
saíram encantados com a fotografia de Longe
do Paraíso, com as interpretações
inspiradas de Julianne Moore e Dennis Quaid (ela foi indicada
ao Oscar e ele, ao Golden Globe) e, acima de tudo, com aquele
cheirinho de mofo que enchia a tela.
Por outro
lado, os poucos que conheciam Douglas Sirk decepcionaram-se,
pois Longe do Paraíso não chega
ao chinelo dos filmes do diretor, nem mesmo quanto à
fotografia (o magnífico technicolor de suas películas
ainda é imbatível). Mas a verdade é que
poucos podiam comparar as obras de Haynes e Sirk, porque encontrar
filmes deste diretor em videolocadora era tarefa impossível.
Se não estou enganado, nenhum filme de Douglas Sirk
havia sido lançado em VHS.
Bem, mas,
felizmente, hoje podemos fazer as devidas comparações,
porque há pouquíssimo tempo foi lançada
em DVD uma das obras-primas do diretor, Palavras ao
Vento, que ao lado de Tudo o que o Céu
Permite, com Rock Hudson, e Imitação
da Vida, com Lana Turner, formam suas mais consagradas
obras.
Eu já
tinha tido a oportunidade de assistir ao Palavras
ao Vento numa dessas madrugadas em algum canal da
tevê a cabo e tive que agüentar uma dublagem horrorosa.
Mas vê-lo novamente em DVD, totalmente restaurado, é
um deleite para o espectador. O filme é mesmo deslumbrante
e embora Julianne Moore e Dennis Quaid tenham se empenhado
muito para fazer bonito no filme de Haynes, ela não
consegue ter aquela beleza arrogante e fria de Lauren Bacall,
nem ele consegue ser um galã como Rock Hudson. Não
estou aqui falando de talento dramático, pois se por
um lado Julianne é consagradamente uma excepcional
atriz, Lauren Bacall jamais conseguiu provar que era grande
coisa, ao contrário, colecionou no cinema várias
personagens equivocadas. Mas, por outro lado, o status de
diva de Bacall é incontestável.
O filme,
obviamente, é um grande melodrama com imagens bem construídas,
músicas belíssimas e interpretações
intensas. As cenas são bem encorpadas com aquele jeitão
antigo de clássicos como Um Lugar ao Sol
e há muita emoção. A seqüência
de abertura é belíssima e inesquecível,
o playboy bêbado abrindo a porta de sua casa e o vento
invadindo o ambiente com várias folhas secas preenchendo
a tela enquanto uma música, indicada ao Oscar, nos
enche os ouvidos. Lembra-me muito a seqüência inicial
de O Morro dos Ventos Uivantes (1939), de
William Wyler.
A história
é de uma família milionária de texanos
que se auto-destrói. Rock Hudson interpreta Mitch Wayne,
o bom rapaz da trama, que se apaixona perdidamente pela esposa
de seu melhor amigo, Lucy, a mocinha da história, vivida
por Lauren Bacall, que, por sua vez, está sofrendo
horrores nos braços do seu marido Kylle, um playboy
alcóolico que entra em crise depois que se descobre
impotente. Para abarrotar ainda mais essa gama de situações
extremas, há ainda MaryLee, irmã de Kylle e
apaixonada por Rock Hudson.
À
primeira vista parece uma grande novela mexicana, a própria
Bacall ao ler o roteiro disse que o filme era uma "xaropada
sem fim" e só aceitou fazer por causa do dinheiro;
mas não é!... e aí está a mão
de um grande diretor. Douglas Sirk conseguia dar uma incrível
dimensão aos seus filmes, fazendo com que eles escapassem
do 'xororô' sem tamanho. Muito pelo contrário,
a película trata de temas bem mais profundos, que se
escondiam sobre do dramalhão que era mais facilmente
digerido pela platéia. Há, por exemplo, uma
desconcertante tensão homossexual entre Rock Hudson
e Robert Stack (o esposo de Bacall) e, em muitos momentos,
nos perguntamos se eles estão disputando Bacall ou
se é uma questão de ciúme gay. A impotência
do marido mostra a farsa do casamento tradicional e faz com
que a união 'feliz' se destrua depois que Bacall fica
grávida, e ele tem certeza de que o filho é
do melhor amigo. Por fim, chega a melhor personagem da trama,
MaryLee, magistralmente interpretada por Dorothy Malone, que
ganhou um merecido OSCAR por esta interpretação.
MaryLee depois de ser dispensada pelo seu grande amor, Rock
Hudson, se afoga em luxúria, tentando preencher como
sexo seu coração vazio (ela está mesmo
um fantástica como a irmã ninfomaníaca,
a cena em que ela dança de camisola ainda consegue
ser bela e ousada ainda para os tempos de hoje). O filme,
como muitos outros de Sirk, fala também da maneira
como a sociedade reage a situações que fogem
aos padrões. Como em Longe do Paraíso,
aqui se fala sobre a maneira como a hipocrisia da sociedade
destrói as pessoas que fogem um pouco do estereótipo
aceito.
O mais
incrível é como Douglas Sirk consegue nos fazer
levar a serio uma história destas. Mas acreditem!,
Palavras ao Vento é mesmo um filme
fascinante e imperdível. Em algumas passagens me faz
lembrar muito Assim Caminha a Humanidade,
talvez por causa da trama girar também em torno do
petróleo ou pelo fato de também ter Rock Hudson
no elenco. Entretanto, Palavras ao Vento
consegue ser ainda melhor.
Assim,
mesmo que Longe do Paraíso não
tenha conseguido ser grande coisa, pelo menos serviu para
resgatarem este diretor que estava esquecido. Palavras
ao Vento é um filme com jeitão de clássico
que deve ser visto. E ainda uma oportunidade ímpar
para vermos Rock Hudson e Lauren Bacall juntos, o que por
si só, já valeriam a locação.
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