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Tirando o Mofo
por Saulo Sisnado

Casablanca Brasileiro

Sim, o Brasil também tem seu grande Clássico. Desde que esta coluna entrou no ar dentro do Adoro Cinema!, tratei de comentar ótimos filmes que merecem ser revistos (ou vistos pela primeira vez). Comentei sobretudo incontestáveis clássicos do cinema americano (não há como fugir da força de sua indústria).

Mas hoje, decidi mudar um pouco o rumo da prosa, decidi descer um pouco no continente americano e fixar o olhar no nosso vivo, embora por vezes adoecido, cinema brasileiro.

Para a maioria dos brasileiros, o cinema nacional começou a dar sinais de vida apenas em 1996, quando um filme chamado O Qr4trilho foi indicado ao Oscar.

Todavia, muito tempo antes outro filme brasileiro (bem melhor que qualquer um dessa nova safra) já havia sido indicado ao Oscar. O impecável O Pagador de Promessas, que foi posto entre os cinco concorrentes por dois motivos: 1- a incontestável qualidade; 2- um prêmio que ganhara pouco antes e que impulsionou sua campanha, A Palma de Ouro em Cannes.

Ao final das contas, Anselmo Duarte (o diretor) voltou para o Brasil sem o Oscar. Mas vendo o filme, nos deparamos com uma obra tão genial, que perguntamos se realmente precisávamos daquela estatueta para ter exacerbado orgulho.

O Pagador de Promessas é o tipo de filme que ainda estamos esperando nessa nova safra de produções brasileiras, um dos poucos filmes excelentes ao qual assistimos em Versão Original. E a principal qualidade deste filme é que, apesar de falar dos aspectos mais íntimos de nossa cultura popular, Anselmo Duarte não quis nos vender. Assistindo ao filme, nos deparamos com um filme brasileiro, feito para brasileiros.

Os filmes sobre a mesma temática gostam de enfeitar nossa cultura, de nos transformar em suvenires para estrangeiros comprarem e nos vender como personagens pitorescos de uma sociedade longínqua perdida no tempo.

Isso, nem de longe, ocorre em O Pagador de Promessas. Anselmo Duarte falou com bastante propriedade sobre os devotos de Santa Bárbara, sobre os seguidores de Iansã, sobre as prostitutas nordestinas, sobre os cafetões e sobre os humildes explorados. Fez isso de uma forma tão verdadeira e honesta, que conseguimos nos sentir integrados na sociedade pintada pelo cineasta. Identificamos na rua cada personagem que vemos no filme, tão cortante é veracidade da narrativa.

Mas o resultado de tão grandioso espetáculo, não se deve apenas a Anselmo Duarte. Os diálogos escritos por Dias Gomes (tirados a partir de sua peça homônima) são deslumbrantes, mostrando a intolerância da Igreja católica diante de nosso sincretismo religioso.

Esta é basicamente toda a história, extremante simples. O roteiro gira em torno de Zé do Burro, um agricultor ingênuo que carregou por sete léguas uma cruz tão pesada quanto a de Cristo, tudo isso apenas para pagar uma promessa feita para Iansã (ou seria Santa Bárbara?), que salvou a vida de seu melhor amigo, Nicolau, um Burro de quatro patas.

Tudo que (Leonardo Vilar numa esplendorosa interpretação) desejava era colocar a cruz dentro da igreja de Santa Bárbara. Mas ele se depara com a intransigência de Padre Olavo, que o proíbe de entrar na igreja. Depara-se ainda com vários personagens inescrupulosos que utilizam sua ingenuidade e tentam destruí-lo. Tentam vendê-lo como mártir, novo Cristo, enquanto que tudo que Zé do Burro queria era acertar as contas com a Santa. Tão cruelmente é pintada a raça humana no filme, que (sem dores) compreendemos porque o melhor amigo de é um burro.

Gloria Menezes faz a mulher de , Rosa, igualmente ingênua e usada por todos. E, assim como Leonardo Vilar, tem uma grande interpretação. Mas nada que se compare à luminosidade de Norma Bengell como a prostituta, uma mulher agressiva e carente.

Como todo grande filme, O Pagador de Promessas tem um final apoteótico. Um encerramento, cruel, triste e extremamente belo. Em suma, esse é um filme para se bater no peito e dizer: Eu sou Brasileiro!
 
Saiba mais sobre "O Pagador de Promessas".

Leia as colunas anteriores de Saulo Sisnando.
 
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