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Tirando o Mofo
por Saulo Sisnado

Daniel Radcliff ou Elisabeth Shue?

Muitas pessoas dizem que eu sou do contra. Ou que tenho opiniões radicais sobre filmes. Bem, para os que são dessa opinião, vou dar um pouco de "pano pra manga", dizendo que me decepcionei 'muito' com Harry Potter e a Pedra Filosofal. Sei que com essa afirmação estou ameaçado a receber e-mails bomba ou recados desaforados dos leitores apaixonados pelos livros do bruxinho.

Mas a verdade é que eu fui para o cinema (no dia da estréia, é claro; ingresso comprado com uma semana de antecedência), com o livro de baixo do braço, camiseta estampada com a Edwiges e muita empolgação. Bati até palmas quando apareceu o título do filme na tela. Todavia os minutos iam passando e eu ia notando que Harry Potter não era tão bom quanto eu esperava.

Quando soube que quem ia dirigir era Chris Columbus, acreditei que o filme ia ser um novo Os Goonies, movimentado e divertido. Mas o filme do bruxinho, apesar das interpretações irretocáveis e dos efeitos especiais deslumbrantes, se arrasta do começo ao final. A história demora a acontecer (o mesmo problema que há no livro), temos a impressão de que o primeiro filme serve apenas para apresentar os personagens e que vão deixar a história só pro ano que vem. Na primeira metade do filme não há crise, não há conflito, é pura descrição (para não dizer enrolação). Quando se entra mesmo na trama da Pedra Filosofal já é tarde demais e não se tem tempo para desenvolver direito.

Acredito que a culpa nem foi de Columbus, parece-me que ele não teve liberdade para criar nada, apenas copiar o que estava no livro. É nisso que dá a escritora acompanhar cada passo do processo criativo, limitando e impedindo que qualquer coisa saísse diferente do que fora descrito no livro; é incrível como identificamos todas a cenas nos capítulos do livro, exatamente como foi pintado. Para que fazer o filme então, se não vai se acrescentar nada? Acredito que não se deve mudar a essência da obra, mas assim já é exagero.

Mas ninguém se importou com os defeitos: muitas críticas positivas e fãs deslumbrados esperando ansiosos pelo próximo filme de Harry Potter - tenho fé que será melhor! - ainda mais se deixarem Chris Columbus criar um pouquinho e fazer um filme para crianças tão bom quanto Uma Noite de Aventuras que, apesar de não ser um clássico do cinema, merece ser comentado e tirado o mofo.

É o filme em que Columbus estréia na direção, e o faz com pé direito.

Esse foi, sem duvidas, o filme a que mais assisti na vida. Quando eu tinha uns 11 anos, possuía uma fita gravada com essa aventura, e assistia todos os dias quando chegava da escola; sabia todos, TODOS os diálogos de cor. Ainda hoje, eu assisto Uma Noite de Aventuras e fico encantado com a empatia que ele causa em quem assiste. Um filme divertidíssimo.

Conta a história de uma babysitter que, acompanhada de 3 garotos, parte para socorrer uma amiga que fugiu de casa e está em apuros, à noite, em Chicago. Aí começa a confusão, o pneu do carro estoura e eles são socorridos por um caminhoneiro sem mão que é traído pela mulher, metem-se num tiroteio, até serem seqüestrados. São perseguidos por bandidos, ficam pendurados num edifício de mais de 100 andares, têm que fugir andando num telhado, são envolvidos em uma luta de gangues dentro do metrô e são feridos a faca, confundem ratazanas com gatinhos quando perdem os óculos, entram em um bar de blues e: "ninguém passa por aqui sem cantar um blues".

Apesar de Elisabeth Shue (uma babysitter linda e carismática) não utilizar varinhas de condão, não voar em vassouras nem possuir uma coruja, Uma Noite de Aventuras consegue ter mais magia que Harry Potter e a Pedra Filosofal e ao contrário desse, a aventura da babá acontece do início ao final, não entediando ninguém (as crianças mais novas agradecem).

Certamente um filme que merece ser visto, nem que seja para termos uma idéia do que Harry Potter e a Câmara Secreta poderá nos proporcionar em matéria de diversão. Isso, é claro, se os executivos da Warner deixarem Chris Columbus em paz. Que J.K. Rowling vá se dedicar à literatura e não se meta na sétima arte. Que nos venha a continuação; logo!
 
Saiba mais sobre "Uma Noite de Aventuras".

Leia as colunas anteriores de Saulo Sisnando.
 
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