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Tirando o Mofo
por Saulo Sisnado

Um Romance Arrebatador

De toda a rica literatura inglesa, O Morro dos Ventos Uivantes é o romance que possui o triângulo amoroso mais arrebatador. Emily Brontë nos transporta através de seu livro até as charnecas bucólicas de Yorkshire e a uma propriedade açoitada pelos ventos devastadores da Inglaterra pré-vitoriana, onde personagens dúbios e apaixonados se digladiam internamente com a turbulência de suas almas.

O Morro dos Ventos Uivantes é uma excelente matéria-prima para qualquer cineasta, pois todo esse arcabouço geraria um filme impecável. Inúmeras adaptações já foram feitas, e atores como Laurence Olivier, Richard Burton, Ralph Fiennes, Charlton Heston, etc., já interpretaram o rancoroso Heathcliff; Merle Oberon e Juliette Binoche figuram como as Cathys mais expressivas. Todavia, como um leitor apaixonado de Emily Brontë, posso afirmar, sem medo, que o cinema ainda nos deve uma boa adaptação desta obra imortal. Nenhum cineasta jamais conseguiu captar a atmosfera negra que envolve o romance de Emily, jamais conseguiram roubar do livro o que ele tem de mais vigoroso, que é a maldição de um amor que destrói os seus amantes e rompe as barreiras do tempo e da morte.

De todas as adaptações, a melhor é a versão de 1939 com Laurence Olivier e Merle Oberon, dirigidos por William Wyler. Realmente é um filme espetacular, possui uma fotografia perfeita, boas interpretações e um bom roteiro. No entanto tem um problema seriíssimo: não é O Morro dos Ventos Uivantes. Quem assiste ao filme, sem jamais ter entrado em contato com a obra, irá se deparar com um filme arrebatador. Mas é decepcionante para os que sabem da saga de Heathcliff e Cathy, pois a história não avança além do 17º capítulo do livro e William Wyler narrou como se estivesse diante da história de A Dama das Camélias, como muito amor transbordante e açucarado (para ser um autêntico fruto de Emily Brontë, o filme deveria ser narrado como uma história de terror).

Sir Laurence Olivier está no auge de sua beleza e tem uma interpretação segura, como sempre, mas seu Heathcliff é romântico demais. A exótica Merle Oberon é quem se sai melhor e nos presenteia com uma Cathy ambígua e meio chatinha tal qual vimos nas páginas do livro, e quando sua personagem diz "Ellen, eu sou Heathcliff! Se ele sofre, eu sofro; sua felicidade é a minha felicidade", quase vemos a tênue silhueta de Emily Brontë cruzando a tela.

Apesar de não ser fiel, este filme circula, incontestavelmente, em qualquer lista dos melhores filmes de Hollywood. Possui cenas memoráveis (como a seqüência inicial quando um estranho se arrisca, na tempestade, bater à porta de uma sóbria casa chamada de O Morro dos ventos Uivantes). Tem uma música envolvente e belas paisagens.

William Wyler construiu um belo romance com toques góticos que merece ser visto. Um filme para se apaixonar, recheado de muito amor e sofrimento, aquele tipo de história que quando acabamos de assistir, soltamos um longo suspiro.

Uma observação final: para os que leram o célebre livro e querem fidelidade à história, a versão de 1992 satisfaz. Não chega a marcar época e está longe de ser um clássico, entretanto é mais próximo do ideal de Emily Brontë. Juliette Binoche está impecável como Cathy e Ralph Fiennes não decepciona como Heathcliff. As charnecas de Yorkshire estão mais deslumbrantes e inóspitas que nunca e o filme começa com um vigor e uma atmosfera bem superior ao clássico de 1939. Mas infelizmente do meio para o fim o filme desanda de uma forma constrangedora, e chegamos a rir de algumas situações.

Quanto às demais adaptações, um conselho: corra às léguas! Pois são medonhas e certamente fizeram Emily Brontë se revirar no túmulo.
 
Saiba mais sobre "O Morro dos Ventos Uivantes (1939)".

Leia as colunas anteriores de Saulo Sisnando.
 
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