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A
família March
Todo ano
era igual, acabava a Missa do Galo e éramos
obrigados a aturar as musiquinhas de Judy Garland em
"O Mágico de Oz". Esse ano foi diferente.
Calaram a pobre Dorothy e nem o Totó
deu as caras na telinha. Se por um lado pensei que ia dar
graças a Deus, pois eu agüentava mais o filme
de Victor Flemming, por outro, senti falta de um filminho
adocicado no Natal. Faltou na TV uma boa fábula com
uma bela moral da história no final.
Para os
que também sentiram falta de um conto de fadas no Natal
sem graça, ainda podem buscar salvação
numa locadora de vídeo, locando qualquer adaptação
do livro de Louisa May Alcott, Mulherzinhas.
Dizem os entendedores de literatura que Alcott sempre
escreveu livros pensando em dinheiro e que o clássico
americano Little Women é uma bela porcaria.
Bem, sendo porcaria ou não (eu li o romance e adorei),
a verdade é que esse é um dos romances mais
adaptados para a sétima arte, são - no mínimo-
4 adaptações cinematográficas, sem contar
das inúmeras para a tv.
Entre as
atrizes que fizeram parte da família March estão:
Katherine Hepburn, Elizabeth Taylor, Janet
Leigh, Susan Sarandon, Winona Ryder e June
Allison.
Nas locadoras
brasileiras estão disponíveis três versões
do romance clássico. São elas: As Quatro
Irmãs (1933), Quatro Destinos (1949) e Adoráveis
Mulheres (1994).
Das três
ótimas adaptações, a de 1933, apesar
de ter Katherine Hepburn interpretando Jo e
ser dirigida por George Cuckor - mestre dos filmes
para chorar - é a mais chatinha de todas. Talvez por
ser a mais antiga e termos algum problema em aceitar os cenários
excessivamente falsos e as interpretações teatrais
que são a marca registrada do cinema da década
de 30.
Mas as
outras duas adaptações são perfeitas.
A de 1949 possui elenco estelar: June Allison como
a maluquinha Jo, Liz Taylor como Amy
e Janet Leigh (aquela que morreu no chuveiro em Psicose)
como Meg. Essa é a versão que mais conseguiu
roubar o espírito familiar do livro de Alcott
e aquela onde houve maior preocupação com todas
as mensagens positivas da história: respeito aos pais,
bondade, honra, companheirismo, amizade, fraternidade, etc.
Apesar de ter todos esses ingredientes, não é
uma xaropada sem fim. É divertido, mesmo lembrando
um pouco as novelas mexicanas, em especial quando as filhas
chamam os pais de Mamãezinha-querida e Papaizinho.
No entanto,
se a prateleira de clássicos da sua locadora não
é lá grande coisa não precisa ficar arrasado,
pois existe a versão de 1994, dirigida por Gillian
Armstrong. Nem tenho medo de dizer que é a mais
feliz adaptação da obra clássica. Apesar
de ser um filme de época com valores meio desbotados,
notamos que muita coisa na história é atual.
As interpretações são contemporâneas
e a direção é segura. Mesmo que as meninas
de hoje não sejam tão desesperadas para casar
e mesmo que não chamemos nossas mães de "mamãezinha-querida",
é fácil se identificar com cada personagem;
a meiga e responsável Meg, a tímida e
doente Beth, a bela e antipática Amy
e Jo, endiabrada e revolucionária.
A trama
de qualquer das três versões gira em torno dos
pequenos dramas destas mulherzinhas e de como superar os obstáculos
com companheirismo e dignidade. Tudo contado do ponto de vista
de Jo, sem dúvida a mais divertida das irmãs.
Ela é escritora, atriz, militante feminista e muita
gente até acha que ela é lésbica. Mas
eu acho que isso já é idiossincrasia demais.
A verdade é que Jo daria uma ótima tese
de mestrado em literatura ou cinema americano, por sua visível
oposição ao casamento, sua total falta de interesse
para com as coisas que interessariam as moças da época
e por ela sempre interpretar os papéis masculinos nas
peças que monta com as irmãs.
Talvez
por estes motivos, Jo é extremamente atual e
ainda será por muito tempo. Sua prioridade profissional
em despeito ao casamento, sua força e ousadia, sua
luta em busca de realizar seus objetivos fazem de Josephine
March uma mulher do século 21. Quando Jo
vende seus cabelos para conseguir dinheiro para a mãe,
vemos uma coragem instigante e nos questionamos se faríamos
coisa de tal proporção, posto que na época
uma mulher de cabelos curtos era uma coisa inaceitável.
Sem qualquer
sombra de dúvida uma fábula sem precedentes
que deve ser vista diversas vezes, tanto pela diversão
quanto pelos questionamentos lançados (mesmo que involuntariamente).
Três filmes para serem vistos no início do ano,
época que sempre repensamos em tantas coisas e tentamos
programar tantas outras. E, acima de tudo, três filmes
para serem vistos sempre.
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