A
Liberdade É Azul
Nós
damos muito valor ao que vem de Hollywood. Utilizo-me de um
eufemismo, a verdade é que para muitos de nós
se um filme não saiu dessa fábrica é
porque não presta. Tanto isto é verdade que
quando Juliette Binoche ganhou o Oscar por O Paciente
Inglês, em 1997, eu me lembro de ter ouvido algumas
pessoas dizendo "Nossa! Ela começou com o pé
direito". Falavam como se aquele filme tivesse marcado
sua estréia na 7ª arte, falavam como se O Paciente
Inglês tivesse sido o Baile de Debutantes de Juliette
Binoche. Tudo isso impulsionado pela campanha milionária
da Miramax, que quis mostrá-la assim.
A
verdade é que (incontestavelmente) Juliette
é uma das melhores atrizes que já surgiram no
mundo cinematográfico e, se ela é assim, não
foi por causa daquele filme de Anthony Minghela. Juliette
Binoche já nos presenteou com várias interpretações
impecáveis e ousadas, destacou-se em A Insustentável
Leveza do Ser, Perdas e Danos, Os Amantes de
Point Neuf, Rendez Vous, filmes que muitas vezes
nem eram bons (ela já fez alguns filmes bem "ruinzinhos"),
mas sempre interpretou suas personagens com uma dignidade
invejável. Mas de todas as suas personagens, uma deixa
qualquer espectador com o queixo caído e se perguntando
"É essa mesma atriz que fez Chocolate?".
Estou me referindo à personagem Julie, que ela
interpretou em A Liberdade é Azul.
Julie
é uma mulher extremamente triste e amarga que perdeu
sua filha e seu marido num acidente de carro. A melancolia
é tanta que Julie tenta fugir deste mundo cruel
que a cerca e se tranca dentro de si, um universo mais triste
e cruel que qualquer outro. Juliette Binoche encara
a câmera com raiva, com ódio, parece que sempre
está com os dentes trincados a força, empatando
algo na garganta que pode explodir em pranto. O problema todo
é que Julie não quer chorar.
A
Liberdade é Azul gira totalmente em torno da figura
de Juliette Binoche, suas tristezas e descobertas e
é um filme belíssimo. E se você nunca
viu um filme de arte, merece começar por esse aqui.
Uma
obra triste e visualmente linda, onde tudo significa. A piscina,
o abajur, os ratos, as cores. Por falar em cores, elas são
uma beleza à parte no filme. Quase todo o filme é
azul, um azul céu tão tranqüilo e que nos
jogaria num ritmo lento se não contrastasse com a violência
da história e o desespero da personagem. Um contraste
entre a serenidade do azul e a angústia de Juliette
Binoche.
O
filme começa com a vida perfeita desta mulher indo
ao chão, espatifando-se. E durante todo a história,
não vemos um esforço sequer de Julie
para juntar um caco de sua vida. Deixa sua vida permanecer
destruída e prefere agonizar em ódio.
Além
da interpretação irretocável de Juliette
Binoche, que lhe valeu o César, A Liberdade
é Azul possui uma música arrebatadora e
forte que interage na história como poucas vezes foi
visto em outro filme. Várias vezes tudo se apaga, como
se num devaneio, e escutamos apenas os sons fortíssimos
da música nos entrando nas entranha e nos arrepiando.
A
Liberdade é Azul é o primeiro filme da trilogia
de Krzysztof Kielowski, que continua com A Igualdade
é Branca e A Fraternidade é Vermelha.
Muitos dizem que o último é bem melhor, não
concordo nem um pouco, Irène Jacob é
uma grande atriz, assim como Julie Delpy (de A Igualdade
é Branca), mas comparando-as a Juliette Binoche,
em especial nesse filme, nada lhes resta.
Um
filme de extremada beleza e sensibilidade, que mostra que
Hollywood ainda precisa aprender (e muito) com o cinema europeu. |