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Tirando o Mofo
por Saulo Sisnado

New York, New York

Estou com um seríssimo problema de tempo. Essa falta de tempo está atingindo tal proporção, que cometi um pecado mortal entre os adoradores de cinema: não fui assistir ao "último" filme de Woody Allen, Celebridades. Mas alguns amigos que assistiram ao filme ligaram-me depois de vê-lo para me matar de inveja. Eu, roendo-me por dentro, tentando ser o mais blasé possível, perguntava o que tinham achado do filme. A maioria respondeu: "Mais um ótimo filme de Woody Allen... (e completavam) Mas sem o Woody Allen".

Entendi exatamente o que queriam dizer (isso, de certa forma, serviu de consolo para mim). Os filmes do mestre Allen têm um roteiro impecável, recheado de neuroses e situações bizarras, têm ótimos atores e têm os melhores e mais inteligentes diálogos. Mas é inegável que o motivo maior de sair de casa para assistir a um filme de Woody Allen é ver (no sentido mais literal da palavra) Woody Allen interpretando o mesmo personagem de sempre, o judeu neurótico e pessimista que nunca muda de endereço, continua sempre ocupando as ruas de Nova York.

Para me redimir ante ao mestre Allen, e pedir perdão por não ter tido tempo de ir ao cinema prestigiá-lo, resolvi comentar esta semana um de seus melhores filmes: Hannah e Suas Irmãs.

Se hoje, o melhor motivo para ir ao cinema assistir a um filme de Allen é vê-lo se interpretando, anos atrás existiam mais dois ótimos motivos: ver as grandes Mia Farrow e Dianne Wiest, que eram figurinhas sempre esperadas nos filmes do diretor. Ambas fizeram seus melhores filmes sob a batuta dele: A Rosa Púrpura do Cairo, A Era do Rádio e esse Hannah e Suas Irmãs.

Aliás, falando-se do elenco de Hannah e suas irmãs, mostro ainda dois grandes motivos para correr na locadora nesse instante: as presenças de Michael Caine, como o marido de Hannah (Farrow), que está muito bem e ganhou merecidamente o Oscar de Ator Coadjuvante pelo papel e a presença da mítica Carrie Fisher, mais conhecida como a Princesa Lea de Guerra nas Estrelas que, tendo aparições relâmpagos no filme, ilumina a tela.

Hannah e suas irmãs segue a mesma cartilha de outros filmes do diretor, como A Rosa Púrpura do Cairo, ou seja, é uma comédia de costumes com uma deliciosa queda para o drama. Woody Allen, a partir de situações engraçadas, constrói um mosaico cômico que no fundo está falando sobre fidelidade, solidão, morte, fracassos, união, amizade e amor. Hannah e suas Irmãs talvez seja o filme de Woody Allen que mais fala de amor, dando-se ao luxo de escorregar em algumas cenas piegas (o final, por exemplo) e em alguns clichês românticos. Mas isso é Woody Allen, e aquele pieguismo que às vezes nos faz ter vontade de se levantar e parar de ver o filme, aqui funciona...e nos apaixona.

É um filme verdadeiramente apaixonante e, apesar dos temas abordados, é de todo leve e delicioso. Tão grande é a empatia que temos com as personagens, em especial as personagens de Farrow e Wiest (que também ganhou o Oscar) que, por vezes, nos irritamos por estar tão envolvidos, torcendo tanto pela felicidade delas, torcendo para que ambas achem seu lugar ao sol, Hannah no casamento e sua Irmã na carreira; e quando isso começa a acontecer, esticamos um largo sorriso no rosto e compartilhamos suas alegrias.

Todavia, para ser mais justo, devo falar também de Barbara Hershey, que interpreta a irmã mais jovem das três e o faz com muita dignidade, mas comparando-a as irmãs, pouco do filme lhe resta. Mesmo convencendo no papel, é difícil acreditar que Michael Caine tivesse ímpetos de trocar Mia Farrow por ela.

Em síntese, Hannah e suas Irmãs é uma bela ciranda de amores, ilusões e tristezas. Um belo mosaico sobre a amizade e a fraternidade. Tendo como pano de fundo a bela e apaixonante Nova Iorque, a melhor cidade do planeta aos olhos de Woody Allen. Alguém há de duvidar?
 
Saiba mais sobre "Hannah e Suas Irmãs".

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