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Tirando o Mofo
por Saulo Sisnado

Um Cadáver no Baú



Não há como assistir ao novo filme de Sandra Bullock, Cálculo Mortal, sem lembrar do clássico filme de Alfred Hitchcock, Rope - que em português, felizmente, ganhou o título de Festim Diabólico. Embora Cálculo Mortal e Festim Diabólico tenham tramas bastante distintas (o primeiro é um filme policial falsamente sério bem ao estilo SuperCine e o segundo é teatro filmado), o enredo parte da mesma premissa: um casal de homossexuais ricos e entediados decidem matar uma pessoa apenas para saber qual sensação este ato pode gerar.

No filme de Barbet Schroeder tudo é extremamente espetaculoso, com história engenhosa cheia de idas e vindas, violência, muita psicologia forense, clichês policiais e minutos em excesso. Sandra Bullock quer provar que é uma boa atriz e a cada milímetro de celulóide notamos que o roteiro e a direção estão empenhados nesta tarefa. Ao final até que Bullock se sai bem, provando que é melhor no drama que na comédia.

Em Festim Diabólico tudo é bem mais discreto e cheio de sutileza, um belo suspense para ser deliciado devagarzinho. O roteiro baseado na peça de Patrick Hamilton (que, por sua vez, se baseou em um fato verídico) é primoroso e vai revelando as falhas do crime "perfeito" praticado por Brandon e Phillip. O filme todo se passa dentro de uma sala onde está sendo servido um jantar sobre um velho baú que esconde o corpo de um dos convidados, assassinado momentos antes de começar a festa.


Sem dúvida o grande mérito do filme está no roteiro recheado de diálogos brilhantes e personagens cheios de humor, criando um espetáculo macabro de humor negro. O suspense aparece nas nuances: o pai que fica preocupado com o atraso do filho, a convidada idosa que faz comentários sobre a mão do assassino, a arma do crime que reaparece no decorrer da história, o esperto professor que começa a desconfiar de algo, a belíssima seqüência em que a governanta, Sra. Wilson (de longe, a melhor personagem do filme), começa a tirar as comidas de cima do baú e está disposta a abrir a arca e guardar os livros de volta.

Festim Diabólico é um filme saboroso, a prova de que teatro filmado pode ser interessante. Passa-se em tempo real, minuto por minuto, e temos a impressão de que Hitchcock filmou tudo de uma vez só. Temos essa idéia porque ele utilizou tomadas ininterruptas de 10 minutos, fazendo a câmera caminhar livremente pela sala como se nós fossemos mais um convidado.

Mesmo assim, foi um grande fracasso de bilheteria. Alguns acreditam que o péssimo êxito se deve às longas tomadas, outros crêem que o público não gosta de assistir teatro filmado; mas como explicar o sucesso de filmes como Disque M para Matar? Por sinal, este é um dos grandes sucessos da carreira de Hitchcock e nada mais é do que um soporífero teatro filmado.

Minha opinião é que o público ainda não estava preparado para assistir a um filme que tratasse tão abertamente sobre homossexualidade e mesmo que em nenhum momento os personagens troquem carícias ou coisas afins, é óbvio que se trata de um casal de amantes. Mas ressaltemos que, até hoje, a platéia ainda não está preparada para tal tema, pois é incrível que Cálculo Mortal, feito 50 anos depois de Festim Diabólico, ainda seja hipócrita a ponto de tentar mascarar a homossexualidade dos personagens.

O filme de Alfred Hitchcock é corajoso e não se entende como um homem extremamente moralista como Alfred teve vontade de filmar esta obra. John Dall e Farley Granger, que interpretaram o casal de assassinos, também foram corajosos, mas infelizmente eram péssimos atores. Dall exagera para interpretar o espetaculoso Brandon e Granger enche a tela de caras e bocas para fazer o tímido e passivo Phillip. Mas Hitchcock nunca teve uma boa direção de elenco e sempre gostou de trabalhar com maus atores como Vera Miles, Tippi Hedren. Por falar nas duas atrizes, Festim Diabólico é um dos poucos filmes do mestre que não possui uma loira gelada.

James Stewart interpreta o professor Rupert, personagem recusado por Cary Grant e Montgomery Clift, pois havia uma menção no roteiro de que o professor também era homossexual. No entanto, James Stewart não teve coragem para isso e sua interpretação ficou fora do contexto.

Enfim, apesar de não ser o melhor filme de Alfred Hitchcock, Festim Diabólico é uma das mais importantes obras do diretor e um grande entretenimento para pessoas inteligentes. Uma obra que merece ser vista e discutida.
 

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