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Tirando o Mofo
por Saulo Sisnado

...E Viveram Felizes Para Sempre



Fui assistir Encontro de Amor, o novo filme de Jennifer Lopez, logo na pré-estréia. Sabia que o filme não deveria ser uma maravilha, ainda mais com um nome desses (os distribuidores brasileiros têm o que na cabeça para traduzir Maid In Manhattan como Encontro de Amor?), mas eu estava num dos meus dias cinzentos e sabia que só mesmo uma bela comédia romântica nos moldes de Cinderela para me deixar um pouco menos melancólico.

E confesso que não saí decepcionado. É ótimo ir assistir a um filme sem grandes expectativas, sem esperar nada... o que vier é lucro! E saí mesmo lucrando, pois tudo é tão leve quanto uma pluma, uma inocente obra à la Sessão da Tarde. E parece que o Wayne Wang está se especializando no gênero, pois seu filme anterior, Em Qualquer Outro Lugar, também era inofensivo até dizer chega. No filme Jennifer Lopez continua linda, carismática e péssima atriz (sabe lá Deus porque essa mulher não leva a vida apenas a cantar). Ralph Fiennes, que eu adoro, é um grande ator, mas acredito que num filme desse... o talento dramático dos protagonistas pouco importa. O enredo é o mesmo de sempre, a moça pobre que se apaixona pelo homem rico, surgindo a partir daí muitos problemas. No caso, ela é uma camareira de um hotel de luxo e ele é um político rico de futuro brilhante. Ou seja, mais Cinderela impossível.

No entanto, o que mais me deixou intrigado neste filme (e poderia ser em qualquer outra comédia romântica) é que sempre acreditamos nessa história da pessoa comum que se apaixona pelo homem mais desejado do mundo, seja ele um grande ator de Hollywood ou um político bonitão. Saí de Encontro de Amor e me recordei que há alguns anos, na época da comemoração do aniversário de 75 anos da Warner, um pacote de cinco grandes sucessos do estúdio ficou a nossa disposição na tela grande. Lembro-me, e foi uma das minhas melhores experiências no cinema, que quando fui assistir Casablanca vi um cinema lotado de pessoas de todas as idades, do vovô (que vira Casablanca no cinema) aos netinhos que nem desconfiam quem é esse tal Humphrey Bogart. E, ao final da projeção, todos pareciam ter gostado muito do filme. A prova inconteste de que Casablanca é eterno.

Em especial me lembro que, nas poltronas atrás de mim, sentaram-se três senhoras idosas muito envolvidas com a nostalgia do filme e quando Bogart cruzou a tela de uma ponta a outra foi visível a excitação das vovós, uma inclusive comentou: "Ele era um pão!". Meu pai é outro fã de Casablanca, tiete de Bogart e apaixonado por Ingrid Bergman. Hoje ele é um bancário aposentado, mas nem posso imaginar como ele reagiria se ele desse de cara com Ingrid Bergman na agência bancaria onde ele trabalhava. Pior, imaginem se Ingrid desse bola para ele. Bem, nem quero imaginar, pois se isso ocorresse eu não estaria hoje aqui escrevendo este texto.

Apesar dos tempos terem mudado, e do cinema ter ficado colorido e bem menos criativo, a sedução continua a mesma. Do contrário, como se explicariam as filas nos filmes de DiCaprio ou Ben Affleck? Mas, notem, eu não estou criticando isso, pois se me disserem que Nicole Kidman passou a pelo menos três quadras da minha casa, eu caio durinho no chão.

Mesmo que a possibilidade da Srta. Kidman vir passear pelo Brasil e ainda dar da cara comigo seja bem remota, nada me impede de parar de sonhar. Quem sabe? É com esse fato tão comum que brinca tantas e tantas comédias românticas, essa paixão que desenvolvemos por grandes celebridades. Nossas mães e avós, por exemplo, já tiveram, naquela hora íntima, o rosto do Rita Hayworth. Tudo bem, pois com toda certeza o meu pai já foi a cara do Cary Grant, eu, certamente, já me pareci com o Brad Pitt e minha parceira já foi igualzinha à Julia Roberts. E por falar nela, lembro-me de Um Lugar Chamado Notting Hill, onde ela é a estrela que interpreta a atriz do filme (ou seria o inverso?), pois nesta metalinguagem ela se representa.

Julia é Anna Scott, uma das estrelas mais bem pagas de Hollywood. Hugh Grant é William, uma pessoa comum, que tem um trabalho comum e que mora num bairro comum, o tal Notting Hill. A história começa quando a maior estrela de Hollywood entra na livraria do homem comum (lembram-se da possibilidade de Ingrid Bergman abrir uma conta na agência do meu pai?) e depois de um pequeno incidente começam a se encontrar e o surreal acontece: ela se apaixona por ele. Só que não é nada tão simples assim, visto que surgem os tablóides com fotos da moça só de calcinha, surgem os amigos que não conseguem agir naturalmente como se Anna Scott fosse uma pessoa real. O próprio William demora a notar que ela é de carne e osso. Tudo isto se repete no filme de Jennifer Lopez, desde os tablóides até os amigos deslumbrados, sendo que em Encontro de Amor ainda há a famosa cena em que a protagonista toma um banho de loja.

Se pensarmos bem, entretanto, engolimos tão bem estes clichês porque eles são sinceros. Se Ingrid Bergman desse bola para o meu pai ou se a Nicole Kidman me escolhesse como seu grande amor... nada seria muito diferente do que vemos na tela grande. A não ser, é claro, que nem Norah Jones nem Elvis Costello estariam por perto para cantar a musica romântica na hora do beijo.

É muito engraçado que o cinema mexa com possibilidades tão remotas de forma tão verdadeira. Estamos certos que nenhuma grande atriz jamais irá se apaixonar por mim, mas temos certeza também que caso isso venha acontecer, será exatamente como Hollywood previu em alguma de suas comédia românticas. Por isso, torcemos tanto pelos finais felizes... porque nos reconhecemos e buscamos, assim como Hugh Grant ou Jennifer Lopez, um grande amor que nos tire da solidão e escreva com letras em itálico: "e viveram felizes para sempre".
 
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