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Tirando o Mofo
por Saulo Sisnado

Uma Involuntária Comédia


Ano passado eu fui ao cinema assistir a um dos melhores filmes europeus já feitos. Refiro-me ao impecável Rocco e seus Irmãos, de Luchino Visconti. O cinema estava abarrotado de pessoas e todos estavam visivelmente extasiados com a beleza do filme, que possui grandiosas interpretações, atores lindíssimos (Alain Delon, Claudia Cardinale, etc) e a direção segura de Visconti. Rocco e seus Irmãos prova que um bom filme não envelhece jamais. E numa época de cores berrantes e câmeras digitais, não deixa a desejar no seu belo preto-e-branco.

Sei que assistirei Rocco e Seus Irmãos com os meus netos e tenho certeza de que ele permanecerá deslumbrante. Mas não são todos os filmes que permanecem assim, presenteados com juventude eterna. São inúmeros os filmes antigos que, quando assistimos, vemos o peso dos anos latejando na tela da TV. E isso é o que ocorre com De Repente, No Último Verão.

Um devaneio psicótico do escritor Tennessee Williams (que escreveu Gata em Teto de Zinco Quente e Um Bonde Chamado Desejo) que foi levado a sério nos palcos da Broadway e ainda levou atores do calibre de Katharine Hepburn, Liz Taylor e Montgomery Clift a encararem a adaptação cinematográfica, sob a batuta do não menos desajuizado Joseph L. Manckiewicz, que ficou famoso por quase ter destruído a FOX depois do estrondoso fracasso do esplendoroso e enfadonho Cleópatra (também com Liz Taylor).

De Repente, No Último Verão é um filme péssimo. Realmente constrangedor e merece ser visto exatamente por isso. Um exagero espetaculoso, com uma história que é impossível de acreditar. Homossexualidade e lobotomia são os ganchos da história, que é narrada com um filme de terror. A trama gira em torno de uma rica viúva (Kate Hepburn) que não aceita a morte de seu filho poeta, Sebastian, que morreu (de repente) no último verão quando estava em algum país de terceiro mundo ao lado de sua prima (Liz Taylor). Ocorre que a morte é misteriosa e está envolvida em algum segredo macabro. Sendo assim, para que Liz Taylor não revele a todos o segredo de Sebastian, a rica viúva interna a garota num manicômio e contrata um conceituado médico (Montgomery Clift) para que lhe faça uma lobotomia (tire um pedaço do cérebro). Só assim ela jamais revelará o segredo.

Cá entre nós... dá para engolir uma história dessa? Bem, a verdade é que três grandes atores decidiram fazer e, pior, levaram muito a sério (outras pessoas também levaram esta loucura a sério, pois o filme teve algumas indicações ao Oscar). Katharine Hepburn está hilária como a viúva má, cheia de trejeitos abobalhados de uma vilã de novela mexicana e o galã Montgomery Clift tem, possivelmente, a pior interpretação de sua carreira. Dos três a única que mostra uma grande interpretação é Liz Taylor, que além de bela, já mostrava que era grande atriz.

O texto é cheio de frases de efeito e muitos "OH!". Sem contar que os personagens sempre acham uma brecha nos diálogos para dizer a frase "... mas, de repente, no último verão..." e só no final do filme revelam o que de tão macabro aconteceu com Sebastian, no último verão.

E põe macabro nisso... a morte de Sebastian é, seguramente, a mais bizarra do cinemão americano: ele é devorado vivo. O motivo disso tudo? Impossível saber. Temendo a censura da época, Gore Vidal e Tennessee Williams (roteiristas do filme) velaram demais as referencias à homossexualidade do personagem, de forma que tudo ficou meio sem sentido e quando Liz Taylor, no seu monólogo final, revela tudo, temos a impressão que fomos enganados, pois já sabíamos da verdade desde o início da história. Para não versar abertamente sobre a homossexualidade do personagem, os roteiristas utilizaram metáforas malucas e no final das contas não sabemos direito porque o homem morreu.

Por tudo isso (ou seria: Apesar de tudo isso?), De Repente, No Último Verão é um divertimento certo. Um filme tão sério e pesadão que com o passar dos anos virou, involuntariamente, uma comédia. Um filme que envolve e prende a atenção até o último segundo, quando a vilã fica doida e a mocinha escapa de perder metade do cérebro numa lobotomia.

Um filme que merece ser visto, por ser verdadeiramente envolvente. Um filme que nos ensina que para contar uma história assustadora, basta acrescentar a frase: "... mas, de repente, no último verão".




Saiba mais sobre "De Repente, no Último Verão".

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