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Tirando o Mofo
por Saulo Sisnado

Inteligência Artificial x De Olhos Bem Fechados

Resolvi assistir ao Inteligência Artificial no dia da estréia. Loucura de cinemaníaco. Esperei quase uma hora na fila e me apertei numa multidão de pessoas que corriam para pegar um bom lugar para ver o filme. Quando começou foi uma inquietação total no cinema. Os espectadores caíram na real e com o passar dos minutos começaram a desconfiar que A.I. estava muito mais para um filme de arte (daqueles exibidos em pequenas salas para três gatos pingados) do que para Hook ou Jurassic Park.

Lembro que quando fui assistir pela segunda vez o "último" filme de Stanley Kubrick, De Olhos Bem Fechados, também me deparei com uma multidão de pessoas enfileiradas. Uma porção de adolescentes que haviam acabado de completar 18 anos (ou ainda nem os tinha) demonstravam uma excitação típica da idade, com risos nervosos e mãos suadas. Todos esperavam um Instinto Selvagem 2, com sexo, ação, pipoca e refrigerante (nessa ordem). Ao final da projeção, eram desoladoras as faces decepcionadas dos adolescentes.

As mesmas faces de decepção surgiram ao final da exibição de A.I., que embora tenha como diretor o mestre "pop" Steven Spielberg, teve como pai do robozinho (magistralmente interpretado pelo menino que era chato em O Sexto Sentido) Stanley Kubrick. E Spielberg o imitou direitinho, imprimindo um ritmo lento no filme e, embora seja um filme tão emotivo que dê vontade de chorar, A.I. é extremamente frio e cruel.

A.I. e De Olhos Bem Fechados são dignos da assinatura de Stanley Kubrick. E para os que esperavam filminhos cheios de bichinhos bonitinhos e muita gente pelada (respectivamente), acabaram vendo filmaços cruéis com seres bizarros e muita gente vestida.

Inteligência Artificial é mesmo tão bom que alguns críticos se empolgaram e bradaram aos quatro ventos que é este o filme digno de encerrar a carreira do magnífico diretor de 2001. Mas terá sido Eyes Wide Shut realmente um equívoco? Acredito que não! Toda esta conversa apenas mostra a fugacidade da indústria cinematográfica. E um dos filmes mais esperados dos anos 90, agora mofa nas prateleiras das locadoras. Uma pena! Não deixe De Olhos Bem Fechados criar mofo.

Sabe aquele filme que a gente pega na locadora, na contracapa tem escrito que a fotografia é belíssima, com técnicas inovadoras e isso e aquilo, mas quando assistimos não notamos nada? Pois é. Em De Olhos Bem Fechados a gente nota. Nós percebemos cada luz que se acende no filme. As cenas são quase tridimensionais, o fundo nunca perde a nitidez; quando Nicole Kidman discute com Cruise e lhe faz revelações devastadoras, tudo a sua frente é claro e amarelo e atrás, tudo é nítido e azul. Quase todo o filme é azul. As cenas em que Tom Cruise está perambulando só pela noite, seja a pé ou em um táxi, são lindas, escuras e azuladas, dão a sensação de desconforto e perturbação de Tom e uma luz que se acende de tempos em tempos na face do ator, revela a cidade que passa veloz por ele. Ou mesmo no Sonata Café ou naquela festa de Natal, que são mesmo festas de luzes.

A história parece, e apenas parece, boba. Pode-se assistir ao filme sem entender porque ele existe, mas o mais provável é que você não permaneça indiferente. Alguns se coçam durante a sessão, outros se remexem e ficam enlouquecidos com a música repetitiva, outros ficam extasiados. Uma mulher, revoltada com a falta de ciúmes e a completa confiança que o marido deposita nela, resolve 'apimentar' a relação dizendo que o traiu em pensamentos. Ele, corrompido pelas imagens da bela mulher com outro homem, resolve se vingar. Seja quase transando com uma prostituta, seja em um bacanal que parece um culto satânico. A partir desse momento, se vê envolvido em algo que não sabe o que é, onde pessoas acabam sendo assassinadas (ou não), estando ele em perigo constante.

No filme, vemos uma interpretação irretocável da belíssima Nicole Kidman, ela nos mostra uma mulher extremamente cínica ou talvez honesta, equilibrada e ao mesmo tempo desequilibrada, segura e insegura: real. Tom Cruise não deixa a desejar, não importa quantas vezes Kubrick repetiu cada cena para extrair uma boa interpretação do rapaz, o que importa é que na tela ele está muito bem. Seu Dr. Bill é distante, compenetrado e meio ingênuo.

Não poderia acabar sem dar o meu palpite sobre a já clássica cena final. Como a máscara foi parar ao lado de Alice? Muita gente acha que foi a própria Alice quem a colocou lá; outros acham que ela estava no bacanal. Eu acho que a máscara não foi colocada por Alice, acho que alguém entrou na casa e colocou ao lado da esposa adormecida, como um aviso final. Metaforicamente falando, talvez Kubrick queira dizer que a esposa havia sido sincera revelando seus segredos e abrindo a caixa de Pandora, mas Bill não estava sendo. Ou, mais amplamente falando, que no casamento sempre estamos dormindo com um mascarado. Por mais que estejamos casados há anos, jamais saberemos quem é realmente a pessoa que dorme ao lado.

Para encerrar, peço perdão pelo excesso de "talvez", é porque Kubrick é assim mesmo.
 
Saiba mais sobre "A.I. - Inteligência Artificial".

Saiba mais sobre "De Olhos Bem Fechados".

Leia as colunas anteriores de Saulo Sisnando.
 
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