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Tirando o Mofo
por Saulo Sisnado

And the Oscar goes to...

Todo ano é a mesma coisa. Chega março e começa toda essa obsessão pelo Oscar, abrimos o jornal e vemos os cartazes dos filmes carimbados com o número de indicações que possuem ao Oscar, como se fosse um teste de qualidade. É incrível como somos manipulados por isto, parece que sempre em março assistimos ao melhor filme de nossas vidas... até o outro ano, quando assistirmos outro favorito ao Oscar e teremos certeza de ser o melhor filme que já vimos na vida.

O cinema é fugaz... Quem ainda se lembra de Ghost - Do Outro Lado da Vida? Quem ainda tem paciência para assistir a Instinto Selvagem, A Mão que Balança o Berço ou Mulher Solteira Procura? A indústria cinematográfica vai substituindo ano a ano os filmes e nós vamos engolindo sem reclamar. Quatro Casamentos e um Funeral deu lugar a The Full Monty, que foi substituído por A Vida é Bela, mas hoje só se fala em Amélie Poulin. E a gente nem precisa ir muito longe, bem menos de um ano depois ninguém fala mais em Inteligência Artificial ou Harry Potter. Agora a onda é gostar de Entre 4 Paredes e Uma Mente Brilhante.

Por esses motivos é que decidi trazer para esta coluna mais um da galeria Não Deixe Criar Mofo: Clube da Luta, de David Fincher. Isto porque todas as vezes que assisto a este filme tenho a impressão de estar diante de um novo Laranja Mecânica, pois, sem nos determos às influências negativas que ambos podem proporcionar, os dois são subversivos, violentos e, acima de tudo, primorosos.

A obsessão de Kubrick pela perfeição e por mostrar sempre o novo parece que atingiu em cheio o talentoso Fincher. Desde que ele saiu do mundo dos videoclipes para dirigir Alien 3 já viamos sua obstinação pela originalidade e vanguardismo. Das câmeras que corriam eletrizantes de "cabeça pra baixo" pelos corredores apertados em seu Alien, passando por cenários escuros do submundo de Seven até chegar nesta aula de cinema que é Clube da Luta. David nos presenteia aqui com ângulos nunca vistos, cenas plasticamente construídas e irretocáveis, com cores berrantes em cenários bem escuros e uma película belissíma.

A história é narrada quase como um videoclipe tecno, de ritmo oscilante que se agrega a uma câmera de ângulos e movimentos vertiginosos. Um enredo bizarro que, por vezes, quase nos faz vomitar por uma completa falta de pudor ao narrar a trama. Fincher mostra exatamente o que quer, sem mascarar nada. O humor negro torna o filme mais maravilhosamente indigesto e uma ironia corrosiva pontua toda a obra. É, sem sombra de dúvidas, uma obra para públicos bastante específicos.

Versa sobre infinitos assuntos. Desde loucura, câncer, caos e sabonete até lipoaspiração e sexo. Dando-se ao luxo de uma tensão sexual entre Brad Pitt e Edward Norton e, acrescentando-se a estranhíssima Helena Bonham Carter, temos um insano triângulo pervertido. Mas creio que fala mais alto sobre a alienação do mundo moderno; sobre o mundo tão apático e frígido onde ninguém consegue se expressar, todos estando podados de suas verdadeiras necessidades em prol de uma convivência pacífica. É uma obra sobre a idiotice dos nossos pequenos mundinhos, sobre a nossa hipocrisia e inércia sobre os valores burgueses que habitam nossa mente, valores que lavam e limitam nossa "laranja" a um "clockwork".

No filme a chave está na violência, esta é a forma encontrada pelos personagens para se expressar: a luta. É a violência gratuita e banal que os faz extravassar; mais uma semelhança com o clássico de Kubrick.

As interpretações são meio caricatas e geniais, aquelas das quais não se tira nem se põe nada; perfeitas. Helena Bonham Carter debuta nos filmes de temática contemporânea, finalmente deixa de ser chata e mostra que sabe interpretar. Edward Norton não precisava provar nada, mas reiterou seu talento. Mas nem um nem o outro conseguiu roubar o show de Brad Pitt, tão exageradamente belo e tresloucado quanto Malcolm McDowell.

Defeitos, o filme tem bem poucos. A demora excessiva para construir algumas cenas (a longa duração do prólogo) ou mesmo o final dificil de aceitar (talvez seja o objetivo). Mesmo assim, são problemas irrelevantes quando estamos diante de um grandioso espetáculo técnico.

Por fim, temos a certeza que Clube da Luta é um filme que não pode ser fruto de modismo. Não podendo jamais ser esquecido. Mesmo que venham vários filmes carimbados pelo Oscar.
 
Saiba mais sobre "Clube da Luta".

Leia as colunas anteriores de Saulo Sisnando.
 
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