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Tirando o Mofo
por Saulo Sisnado

A Rainha da Sessão da Tarde: Molly Ringwald

Você pode até não conhecê-la pelo nome. Mas, certamente, você já esbarrou alguma tarde dessas, daquelas nubladas e morosas, com um filme desta ruivazinha que ocupa o posto de a Rainha da Sessão da Tarde. Ela não é linda como Lauren Bacall, nem tem o talento de Katharine Hepburn. Mas Molly Ringwald tem um carisma que mataria de inveja Audrey Hepburn ou Julia Roberts.

Sempre dirigida por John Hughes (mestre de filmes teens), Molly Ringwald tentou ser versátil; já interpretou uma menina rica (O Clube dos Cinco), uma de classe média (Gatinhas e Gatões) e uma pobre de jó (A Garota de Rosa Shocking). Entretanto a diferença entre as personagens termina por aí, pois todas sempre têm 16 anos e são boazinhas, virtuosas e, principalmente, virgens. Molly interpretava tão bem essa personagem que quando não era mais possível enganar-nos que tinha 16 anos, foi decretado o seu ostracismo e ela desapareceu do mundo cinematográfico. Todavia, de vez em quando, ela mostra sua face (que continua encantadora) em algum telefilme ou seriado americano para matar a saudade de todos.

Mas tenhamos pés no chão: dos três filmes acima citados, o único que realmente merece o status de clássico é O Clube dos Cinco. Um filme cultuadíssimo e marco da geração Brat Pack (ao lado de Vidas Sem Rumo) que se passa, praticamente, em um único cenário: uma biblioteca. Mas o roteiro é tão bem escrito e os diálogos são tão verdadeiros que o filme não se torna enfadonho. O elenco é bonito, talentoso e totalmente cúmplice da platéia. Emilio Estevez faz o Atleta, Anthony Michael Hall faz o Gênio, Ally Sheedy interpreta o lixo, Judd Nelson, o marginal e Molly, no seu melhor papel, o de princesa. Como se viu, o Clube dos Cinco fala sobre os batidos estereótipos adolescentes; mas como negar que os estereótipos não existem?
Partindo para o lado das Comédias Românticas, Molly Ringwald interpretou em Gatinhas e Gatões uma garotinha de classe média que além de amar o bonitão do colégio que nem sabe de sua existência, ainda sofre porque toda sua família esqueceu o dia de seu aniversário de 16 anos. Gatinhas e Gatões é um filme divertidíssimo, daqueles raros tipos que nem sentimos o tempo passar, pois a todo o momento uma série de adolescentes bizarros (mas totalmente verdadeiros) cruza a tela; com destaque para o chinês doido e para o louro magricela e feioso metido a garanhão, este último interpretado pelo, digamos, príncipe da Sessão da Tarde: Anthony Michael Hall. Além de uma série de cenas impagáveis, como o casamento da irmã bêbada, Gatinhas e Gatões ainda tem um charme a mais, a presença dos irmãos John e Joan Cusack, ainda desconhecidos e em papéis totalmente secundários.

Mas dos três filmes, o mais bobinho é A Garota de Rosa Shocking, que como não poderia deixar de ser é o maior sucesso da atriz. Aquele filme que disputa de igual para igual com Curtindo a Vida Adoidado como o filme que mais passa na TV nestas tardes de férias. A Garota de Rosa Shocking tem aquela conhecidíssima história da garota pobre que se apaixona pelo rapaz rico, mas enfrenta muitos problemas até o seu amor se perpetuar. Uma Cinderela dos tempos modernos, regado com muito humor e crises da adolescência. Na história, tudo que Molly quer é um vestido bonito para ir ao baile e encantar seu príncipe, até que uma fada madrinha (aqui de carne e osso) costura um vestido rosa shocking "medonho" e breguíssimo que todos acham lindo. Obviamente, Molly termina com o bonitão; um filme de tal leveza que soluciona todos os problemas da garota com um simples vestido cor de rosa.

Seja qual for o filme que prefiramos, sempre nos depararemos com o rosto angelical de Molly, sua voz suave (tudo nela é suave) e seus inúmeros e enormes problemas (devemos entender como problema seus seios ainda não terem crescido ou o bonitão ainda não ter lhe dado bola). Mas Molly Ringwald está impregnada de tanta sinceridade que nos compadecemos de seus 'grandes' problemas e torcemos pela melhor solução como se ela fosse nossa amiga do peito há anos (será que ela não é?).

Assistindo aos seus filmes hoje (como tive que fazer para escrever este texto), descobri que seus filmes ainda nos envolvem da mesma forma que anos atrás, época em que ainda precisávamos mentir para mãe que não tínhamos trazido 'dever de casa', só para não perder a reprise de A Garota de Rosa Shocking.

Os filmes de Molly Ringwald estão, sem dúvida, no patamar de clássicos indiscutíveis. Não pela perfeição de elementos técnicos como a fotografia e a iluminação, mas pela forma como nos encanta. Belos filmes, que hoje (felizmente) nos aperta o coração de saudosismo e uma sensação de Déjà vu.
 
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