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A Vida
Como Ela É
Quando
terminamos de assistir ao clássico europeu A Bela da Tarde,
ficamos com uma dúvida ecoando na mente: como se chama a personagem
principal do filme? Será que se chama Sevérine ou será
que se chama Engraçadinha? Bem, a personagem da belíssima
e angulosa Catherine Deneuve atende pelo nome de Sevérine,
mas não nos espantaríamos se em algum momento ela fosse tratada
como Engraçadinha. Isso porque Sevérine é uma
típica personagem de Nelson Rodrigues. Aliás, o nome
do filme bem que poderia ser Bonitinha mas Ordinária.
Certamente,
se o grande Nelson tinha um filme preferido, o filme
era A bela da Tarde. Pois todos os elementos que o
consagraram estão presentes nesta obra de Luis Buñel:
os maridos limpos e insossos, o amigo que deseja a mulher
do próximo, as apáticas moças de sociedades, as traições e
os finais trágicos.
Neste caso,
a história gira em torno de uma deslumbrante e jovem dama
da sociedade, recém casada com um médico conceituado e bonito
e que a ama sobre todas as coisas. Ou seja, para qualquer
moçoila da época, a vida de Sevérine é a concretização
dos sonhos de feliz casamento. Não fosse um pequeno detalhe:
a imaginação da linda esposa.
Como as
melhores personagens de Nelson Rodrigues, a beleza
e frigidez de Sevérine, esconde uma mulher extremamente
devassa, que sonha apanhar do marido, ser estuprada por desconhecidos
e ser amarrada, chicoteada e suja de lama. É isso o que ela
deseja. A lamentar apenas, que seu marido jamais aceitaria
tal situação, ele é um homem exageradamente doce e nem um
pouco violento.
Insatisfeita
sexualmente, Sevérine decide prostituir-se em um bordel
de luxo, onde poderá colocar em prática todos os devaneios
eróticos que jamais pode executar com o marido. É violentada
por um cliente agressivo, chicoteada por um outro e, chega
até, a se fingir de morta para um velho necrófilo.
Belle
de Jour é um filme simplíssimo, toda a trama gira em torno
das fantasias sexuais de Sevérine, sonhadas ou realmente
concretizadas. Mas o filme é tão elegante e sofisticado quanto
à própria Deneuve, e o que em mãos impróprias viraria
um pornô de sétima categoria, nas mãos de Luis Buñel
virou um filme de arte impecável que já se tornou um clássico
e é uma obra indispensável para qualquer um que goste de cinema.
Hoje, disponível
em copia remasterizada, podemos nos deparar com uma fotografia
de Sacha Vierny excelente e impecavelmente frígida.
Vale ressaltar que tudo no filme é frígido, as interpretações,
os diálogos e as belezas. Mesmo em suas fantasias sexuais
mais tórridas, Deneuve se mostra tão apática e submissa
que os ângulos de seu rosto escultural e toda a sua sofisticação
transformam tudo em algo frio e distante. Mas o apatismo de
Catherine Deneuve não pode ser encarado como um ponto
negativo, muito pelo contrário, é nele que reside toda a magia
do filme.
Deneuve
teve em suas mãos a maior personagem de sua carreira, algo
tão importante que até hoje não há como encarar Deneuve
de outra forma que não como a prostituta que só pode ficar
no bordel até as 17h00, daí o nome A Bela da Tarde.
E ela fez por merecer e nos presenteou com a loura fria mais
interessante do cinema, deixando a ver navios todas as louras
gélidas que povoaram os filmes de Alfred Hitchcock.
E para
manter as semelhanças "involuntárias" com as histórias
de Nelson Rodrigues, não poderia faltar o final trágico...
é põe trágico nisso. Um encerramento cruel e dúbio com direito
as mais esdrúxulas interpretações do espectador. Um belo filme
sobre a hipocrisia da sociedade que nos cerca, onde o rótulo
é bem diferente do conteúdo. Quando o filme termina, se nos
aproximarmos bastante do televisor, poderemos escutar a voz
gutural de Nelson Rodrigues dizendo: "É...
A vida é como ela é!" .
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