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por Rodrigo Fernandes


Tropa de Elite e outras picaretagens



Realmente vivemos num lugarzinho pitoresco, ninguém em sã consciência pode negar que por essas latitudes coisas sobrenaturais acontecem a toda hora, numa boa. São tantos os fenômenos que desafiam a compreensão humana que a gente nem se espanta mais, tropeçamos neles a toda hora, ficando tudo dentro da maior normalidade. E não vou nem falar em política, economia e outras áreas onde a magia, o macumbismo e o fantástico são banais, ficando pelo cinema mesmo, que é a nossa praia aqui nessa humilde coluninha.

O caso Tropa de Elite, por exemplo. Hoje o filme mais falado, comentado e polemizado do Brasil é um filme que nem estreou ainda. Quer dizer... não estreou nos cinemas, porque em todas as esquinas do Rio de Janeiro (acho que do Brasil, não sei, me dizem vocês) tem uma banquinha vendendo o filme por uma merreca qualquer. E digo mais, eu mesmo já teria assistido o dito cujo se meu aparelho de DVD não fosse fresco, metido a fino, e rodasse DVD's piratas numa boa. Mas só de sacanagem - todo mundo sabe que tenho problemas com máquinas, e elas comigo - o infeliz se recusa a ler DVD's genéricos, só aceitando os de marca. Como disse, pura frescura.

Por aí a gente vê como aqui as coisas funcionam de um jeito esquisito, de trás pra frente. Um país das maravilhas sem Alice. Enquanto na indústria oficial de entretenimento o que impera é a zona e a balbúrdia total, com filmes que não entram em cartaz, produções que são anunciadas nos cinemas mas só saem em vídeo (Cafundó saiu, olha que coisa doida, primeiro em DVD para um mês depois estrear nos cinemas) e outros que não ficam em cartaz nem uma semana, a indústria pirata trabalha na maior eficiência. Quem pode tirar os méritos dos caras? Bastou um malandro, nem tão malandro assim (tá preso, o infeliz), afanar uma cópia, e dias depois já existiam milhões de VCD's e DVD's sendo vendidos em tudo que é lugar, disponível inclusive via web. Tudo feito com uma velocidade e uma competência germânica. Ou seja, a indústria “marginal” é mil vezes mais organizada e competente que a “oficial”. Aliás, são sujeitos como esses que a gente precisa no circuito exibidor e nas secretarias de cultura. Aí sim, esses trecos sucateados e mal geridos iam pra frente. Capitão Gancho pra presidente.

* * *

Conspiradores andam dizendo que todo esse trelelê maluco foi feito pra promover o filme. Discordo da hipótese. Afinal hoje em dia qualquer filmeco nacional atrai multidões. O público do Tropa de Elite vai ser bom, com ou sem pirataria. A produção trata de violência, tiroteios, mortes, drogas e outros temas que o povão gosta. A galera curte essas paradas bizarras, essas barras pesadas, o pessoal se identifica com isso. E não tem mesmo como ser diferente. Sociedade bosta, cinema fedorento.

* * *

Em tempo. Antes que alguém cisme de me pendurar um processo na carcunda - hoje em dia tudo dá processo - tiro meu derrière magro da reta e aviso logo que não sou a favor da pirataria, longe de mim. Produto pirata quase sempre é uma porcaria, quando não vem um gato em vez da lebre (um amigo meu comprou um CD de jogos e o negócio era na verdade um filme pornô do Alexandre Frota). O barato quase sempre acaba saindo caro. Mas também sou frontalmente contra se pagar trinta paus num CD, vinte pratas num bilhete de cinema ou oito reais num aluguel de DVD (coisa a qual me sujeito por razões humanitárias, como quem acompanha minha coluna bem sabe). No momento a pirataria fica na categoria de... hummmm... bem... well... de Mal Necessário. Tenho dito.

* * *

Ok, ok, cada maluco com a sua mania. A minha, uma das minhas, é assistir trailers, adoro. Até quando alugo um DVD faço questão de ver o anúncio dos outros filmes. Sei lá, acho que ajuda a entrar no clima, o negócio é meio que um petisco, um aperitivo que abre o apetite pro prato principal. Mesmos os filmes ruins de doer (ou principalmente esses) conseguem ter um trailer legal, um que te pega pelo pé, te engana direitinho. Não é à toa que os tais anúncios - e eles não passam disso, meros anúncios - são dirigidos por especialistas. Diretores de cinema que só dirigem isso, trailer, só.

É claro que há trailers e trailers. Dia desses vi um que me deixou... puxa, véio... chocado... Anúncio de um tal de Premonição 3 - Edição Especial que traz: Uma tecnologia inédita no Brasil (e tome imagens de gente virando presunto)... um revolucionário recurso interativo que transforma você no diretor do filme (e toma choques de alta voltagem, explosões, tripas voando, decapitações, atropelamentos)... decida os rumos das histórias (e mais corpos, empilhados, aos lotes, sem miséria)... Crie novas e tenebrosas mortes... um filme com horas de diversão garantida!” . Tudo isso narrado como se o cara estivesse vendendo entradas pro parque do Beto Carreiro. Tive pesadelos, ouvi o capeta gargalhar. Cacete, será que ficar matando gente (mesmo num filme, mesmo de mentirinha) é diversão? Putz, vagabundo anda apelando mesmo, vendendo urubu como frango a passarinho. Retiro tudo o que disse sobre os trailers. Esses tira-gostos do mal agora eu dispenso.

 
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