Aviso:
Após ler, favor usar a descarga
Faz umas semanas, minha gente, que o cronista vem passando por uns perrengues. Pois é. Engrossaram com ele essa semana de não ter jeito, neguinho teve de sair fugido para as gloriosas e geladas montanhas de Oklahoma City. Ouvi dizer que o caso é de morte. Foi ameaçado por uns malucos frenééééticos, uns verdadeiros chupa-cabras. E adivinhem pelo que? Por falar o que pensa, oras. Quer coisa que dá mais trabalho que dizer o que pensa, principalmente sobre cinema? Guardem de lição. Mas não se preocupem, ele só vai esperar a poeira baixar e já volta. Enquanto isso por aqui, quem sua frio sou eu, que nunca na vida pensei em escrever uma coluna.
* * *
Então estamos entendidos, sou uma cinéfila a-ma-do-ra. Reconheço que não era a melhor opção para ficar no lugar do cronista, mas, para situações extremas, medidas extremas. Suplico que não esperem ler aquelas coisas que o pilantrinha insano vive dizendo, como o “vendedor de bala no sinal”, os termos rocambolescos e principalmente os técnicos, como roteiros amarradíssimos ou mal costurados. Aliás, por falar em termos técnicos, é justamente o que não verão hoje. E como a coluna é um diário, eu quero contar um fato engraçadinho que me aconteceu há pouco tempo atrás. Estávamos eu e uma amiga (que se autodefine como Cult-Bacaninha, povo que só assiste filme alternativo, usa minâncora e polvilho anti-séptico achando que é onda) assistindo Volver, dirigido pelo Pedro Almodóvar. Homem que na terra dessa galera é rei. Pois no fim do filme, a menina me vem com a pérola.
- Pois é, um filme fotografado é outra coisa...
Ué, fiquei logo aperreada. Como assim fotografado? Vem cá, foi isso que ela disse? Pode ser devaneio da minha mente doentia, mas sempre pensei que todo filme obrigatoriamente tem fotografia. Então se supõe que todos sejam fotografados. Ora bem, ora mal. Lógico. Mas esse fotografado solto, por que ficou exatamente assim, não pensem que ela explicou depois, naaaada. Mandou o fotografado dela, como se fosse princípio e fim. E a partir daí comecei a reparar que existe não só nela, mas em toda uma “galerinha” essa mania de ser pseudocrítico. E não dá outra, passa-se vergonha. Eu acho superinteressante estar informado sobre o que se assiste, isso torna o público mais exigente. Não defendo a ignorância, de jeito maneira. Mas concluí faz tempo, que as fórmulas dos remédios quem deve saber de cor e salteado são os médicos e farmacêuticos. O mesmo para o cinema. Aos críticos: os roteiros, a fotografia, a montagem, enfim, a dissecação dos filmes. Aos demais: as risadas, os choros, os frios na barriga e a soneca na poltrona do cinema, toda a emoção ou a falta dela. Claro que é bem melhor perguntar ao doutor como age o remédio no seu corpo, se tira mais proveito quando se entende melhor o processo. Mas não precisa de fórmula. O mesmo para as telonas, quem precisa do tecnicismo são os diretores, produtores, os cineastas e até os críticos. E aos cinéfilos, cabe se informar para apurar o paladar e extrair o melhor. Afinal, a sétima arte deve ser um veículo para a nossa alegria e não mais uma cobrança na nossa vida.
* * *
Uma vez numa locadora conversei com um recifense que tinha vindo para o Rio, para fazer cinema. E o homem sabia tudo, absolutamente tudo, o que possa interessar e o que não também. Fazia as conexões, de diretores, roteiristas, figurinistas, parecia uma máquina, tive medo dele. Mesmo assim, o papo rendeu duas horas. Indicou-me mil filmes pra ver. E me fez perceber que nós tínhamos algo em comum. A diferença é que para mim era lazer e para ele a questão era seriíssima. Toda vez que eu fazia uma piadinha, sabe como é, só pra quebrar o gelo, recebia um iceberg de frieza. E ele continuava concentrado em se lembrar de todos os nomes, não admitia dúvidas. Uma coisa pavorosa, nunca queria ter essa relação-catálogo com o cinema. Ser crítico é pra todo mundo, ser O Crítico é que não é. Fiquem gratos por nem todo mundo adotar essa onda, principalmente de se fingir crítico, imaginem as gafes. Misericórdia.
Oh, e pra ninguém me olhar atravessado porque eu estou enchendo lingüiça, desavergonhadamente, vou saindo pé ante pé e espero ter me feito entender, que críticos e opinião pública se encontram em um ponto, adoram cinema, e ponto.
* * *
Mariana, cronista por um dia para os Diários Cinéfilos.
* * *
P.S.: Oklahoma coisa nenhuma, fugi, secretamente (claro), fui pra Minneapolis, ou seja, literalmente pra ponte que caiu.
Rodrigo Fernandes
Cronista & Fugitivo