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Diários Cinéfilos
por Rodrigo Fernandes


O Transformer Brasileiro



Fui assistir Transformers movido por uma nostalgia boa, afinal também vivi um pouquinho dos anos 80. Fui na paz, flores na mão, coração aberto, tanto que entrei no cinema cantando baixinho um mantra. "Hare, hare, me surpreenda Bay, hare krishna, me surpreenda Michael, hare hama, krishna, krishna". Só faltava o incenso. Mas não deu, não foi dessa vez que Michael Bay vai ganhar meu aplauso, até porque Transformers tem como único, mas enorme problema, o próprio Bay.

O diretor até tenta dar ao filme um toque interessante, um toque humano, focando a história não nos robôs, mas nos humanos que acabam indo parar sem querer no meio da guerrilha cibernética. A produção também é inegavelmente caprichada, não dá pra negar. As geringonças, embora não tenham nada a ver com o saudoso desenho animado da Hasbro dos 80's, são bem feitas pra chuchu. Dá pra sacar que Bay se esforçou, trabalhou duro, mas o diretor é preso demais às suas próprias fórmulas e incompetente demais pra fugir delas. Os maneirismos de seus outros filmes estão todos lá. Cenas ao pôr do sol, uma barulheira dos diabos, cenas ao pôr do sol, roteiro que não é roteiro, cenas ao pôr do sol, explosões mirabolantes, cenas ao pôr do sol, uma edição pra lá de caótica, cenas ao pôr do sol, rostinhos bonitos, cenas ao pôr do sol, frases saídas de um manual de escoteiros, cenas ao pôr do sol, ufanismo ianque em barris, cenas ao pôr do sol... enfim, o de sempre.

Tendo um protagonista de razoável talento (Shia LaBeouf, bom ator, tem futuro) o diretor resolveu injetar altas doses de... hummm... bom humor no filme. Que a principio funciona que é uma beleza. Mas chega uma hora que você... nossa ... você não sabe se está assistindo uma comédia pastelão, um filme de ação ou uma propaganda da Chevrolet. Esse é o problema, Michael Bay é um sujeito sem direção, não sabe dosar os elementos que tem nas mãos. É mais ou menos como um cozinheiro desastrado que vive solando o bolo ou salgando o feijão. Um mestre-cuca pirado, insone, doido de ecstasy ou outra parada forte qualquer.

E ele tem a mão pesada! Ele não se contenta com pouco! Nãããõoooo. Tudo sem miséria! O bastardo quer muita ação, muito humor, mulheres muito gostosas, muitos tiros, muitas perseguições rocambolescas. As cenas de luta entre os robôs são tão sideradas, tão perto das câmeras (o diretor quer você dentro da luta) que simplesmente não se sabe o que está acontecendo, quem está batendo, quem está apanhando... John Turturro, geralmente acima do bem e do mal, faz um agente do governo tão caricato que... misericórdia... dê adeus pra sua respeitável carreira, John... o papel na próxima continuação de Debi & Lóide já é seu. Enfim, Transformers podia ser um filmão e não precisava mudar muita coisa, era só o diretor tirar o pé. Fico imaginando o que um James Cameron ou um Peter Jackson, sujeitos de bom senso, fariam num filme desses...

* * *

Outra coisinha lamentável. Transformaram o simpático fusquinha Bumblebee - se diz Bâboubí -, o personagem mais bacana do desenho animado, em um Camaro esporte, carro de playboy... imperdoável... imperdoável.

* * *

Robôs alienígenas e diretores alucinados à parte, a melhor fita em cartaz nos cinemas (infelizmente em bem poucos cinemas) é Fabricando Tom Zé, documentário que conta a história do nosso Transformer. Para quem não está ligando o nome à pessoa, Tom Zé é o musico mais louco, demente e original já parido pela nossa música popular. Baiano por nascimento e experimental por opção, Tom Zé é o homem que consegue transformar barulho em música. Enceradeiras, jornais, serras elétricas... enfim... os instrumentos do cara não são dos mais comuns. E ele tem a explicação! Logo no início do documentário ele manda a real: "Sou um péssimo compositor, um péssimo músico e um péssimo cantor. Então pra quem é péssimo tanto faz tocar um piano ou uma enceradeira". Esse é Tom Zé por Tom Zé e poderia muito bem resumir as quase duas horas do excelente documentário do diretor paulistano Décio Matos Jr.

O filme enquadra a turnê do cantor pela Europa em 2005 e entre um show e outro vai colando os fragmentos da sua trajetória musical. Da sua infância no grotão da Bahia ao hype tropicalista, sem deixar de fora sua fase de absurdo ostracismo nos anos 70 e finalmente seu renascimento nos 80 pela mão do americano David Byrne (líder da extinta banda Talking Heads). De extremo a extremo, de cabo a rabo, de Irará à Nova Iorque. Do Tom Zé o gênio, à Tom Zé o louco incompreendido. Tudo ao mesmo tempo agora. Esse é o grande trunfo do documentário, tentar captar a totalidade TomZeniana. E para isso não se permite qualquer concessão. Se mostra o público em momentos de delirante apoteose na Itália (cinco bizes!) também mostra o homem sendo solenemente vaiado na França ao tentar cantar uma canção num francês não menos que miserável. Embolando imagens de arquivo, entrevista com notáveis (Gil, Caetano, Arnaldo Antunes...), cenas de bastidores e técnicas de animação, Fabricando Tom Zé conseguiu a proeza de desnudar boa parte do riquíssimo universo do artista. Além de convencer como entretenimento honesto e inteligente o documentário se torna um filme-referência sobre um dos mais originais criadores da música nacional. Incontestavelmente, nosso Transformer.

* * *

Aproveitando essa onda Pan-Americana (pouca gente sabe, mas além de cronista sou medalhista olímpico de Decatlo Pós-Moderno) pensei em falar sobre alguns filmes... digamos... esportivos. Mas como apenas Carruagens de Fogo e Fuga para a Vitória (esse um surreal filme de futebol com Pelé, Michael Caine e Stallone, dirigido por John Huston) me vieram à cabeça, fui dar uma pesquisada e descobri que de fato há muito poucos filmes sobre esportes. Tirando um monte de produções americanas sobre futebol americano e beisebol (todos com Kevin Costner) os outros esportes ganharam bem pouco espaço nas telonas. É coisa pra se pensar... por que uma coisa tão popular, forte e magnética como o esporte é tão pouco aproveitado pelo cinema? Respostas inteligentes para o e-mail da coluna.

 
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