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por Rodrigo Fernandes


Chaplin



Relatos de filmes perfeitos chegam e chegam, gente de bom gosto essa. Clássicos, magníficos, magnetos, coisas que só a grandeza do gênio humano poderia inventar, coisas que sobrepujam a própria natureza, por vezes chata, real, cruel conosco, que temos dois olhos e um coração fraco. Sinto certa felicidade boba quando essa gente longínqua qual nem conheço me sopra na orelha o que os emociona, quais são aquelas imagens que enfileiradas transformam suas vidas. Os filmes de hoje não transformam mais ninguém, os filmes de hoje são para iludir nossos olhos, há muito tristonhos com a realidade vil e tacanha, são narcóticos pesados e de duração relâmpago, só duram o tempo de seus rolos de celulóide. Como amores de baladas, gozamos sem saber o nome do parceiro, sem saber em quem. Quando a tela apaga num The End que nem existe mais voltamos ao mundo, ao bode, à ressaca, continuamos os mesmos. Pensei que ninguém mais queria experimentar ser tocado, transformado por uma obra de arte, de se emocionar, de se indignar, de se saber apaixonado, de encontrar a si próprio, de sofrer catarses por meio de um filme. Que deixa de ser filme e vira pedaço de memória, pedaço da gente. Mas graças a Deus me enganei. Há sim gente de coração valoroso no mundo. Vos considero meus irmãos e peço que me aceitem, humilde, como tal.

Mas nos nomes que chegam sinto falta dele. Oh, Deus quando foram esquecer de ti pequeno Chaplin? Como não citam ao menos um filme teu, o menor que seja? O mais incompreendido? Aquele em que teu gênio quase falha? (de fato ele jamais falhou) Aquele mesmo que ninguém foi ver? Oh, Charlie, inglês vitoriano de terra distante e fria. Me pergunto se estás esquecido apenas no imenso e tropicálio Brasil ou se o resto do mundo também perdeu tua imagem, trocada por monstros digitais ou super-heróis de mentira. Pergunto, porque o mundo está em guerra, o mundo está uma brasa, o mundo fede e não há ninguém como tu para humilhar os que se acham grandes, como fizestes em O Grande Ditador, ninguém para gritar aos setecentos ventos que as máquinas andam engolindo os homens como percebeste gênio em Tempos Modernos. Nenhum safo em sétima arte para mostrar como é ridícula a ganância, Em Busca do Ouro fizeste isso, impecável como sempre. Carlitos, Carlitos... precisamos de ti. Os excluídos precisam se ver como heróis, os doces vagabundos clamam um exemplo, um mártir. Mas há exatos trinta anos tu foste brincar nas nuvens e não voltastes mais. Volta Chaplin, não sou eu, simples escriba de talento duvidoso que pede. São nossas crianças nas ruas, nossos garotos, nossos kids. Carlitos, inventor do cinema, volta, se enfia feito alma no corpo de algum diretor coreano medíocre e retoma nossa alegria. Até as meninas estão a sentir vossa falta, não, elas não gostam dos brucutus tatuados que passam em carros velozes com a mala aberta a acordar o mundo. Elas só fingem que gostam disso. Se elas te conhecessem... tua ternura, teu bigodinho infalível... Se soubessem que conquistastes as mais belas moçoilas do seu tempo sem dizer uma palavra sacana...

Sim, é claro que sabemos que não foste santo. Sabemos que eras fogo ao negociar teus filmes, bem que gostavas de um dólar, mas que mal há nisso pequeno inglês nascido nas margens do feio Tâmisa? Nasceste na miséria, Freud explica. Quando dirigias teus atores também não eras o melhor dos homens, isso é certo, Marlon Brando (onde estarás também, grande homem?) sofreu na tua mão em A Condessa de Hong Kong. Mas fazer o quê? A perfeição não brota em pedras, até um vagabundo sabe disso. Oh! Mas se escandalizaram - uma nação inteira - ao saber que gostavas de moças com metade de tua idade... Ah Carlitos! Por que não vieste para o Brasil? Não sabes como te entendemos... Não sabes... Mas te fizeste comunista e para a América isso foi teu pecado capital, pois para eles pensar em igualdade sempre foi crime lesa-pátria, expulso, exilado, anos na fria Suíça, tão mais mudo como em teus filmes. Mas o reconhecimento veio com a maior ovação já feita a alguém na cerimônia do Oscar, minutos, horas. Merecias mais, é claro, mas os gênios vivem melhor no futuro do seu tempo.

Sim Chaplin, volta. Já faz trinta anos que estás ausente, ausente-presente pois morreste para tornar-se imortal, estás mais perto do que longe pois saíste da vida não para entrar para história mas sim no coração e mentes dos que ainda os têm. Assim, tu Chaplin, te tornaste mais Chaplin ainda. Mas volta amigo, tal como Dom Sebastião para combater os mouros ianques, invasores de nossas telas, ou como rei Arthur para espetar tua bengala excalibur em nossos cineastas metidos a intelectuais de caatingas. Vinde a nós Charlie, redime os solitários, os tristes, os patéticos, os simples de coragem. Vinde a nós, faze-nos rir sem risadinhas sem graça e enlatadas. Vinde a nós para nos mostrar que não somos feitos de bits e bytes, pois és mesmo o exemplo do homem. Fraco, forte, ditador que frutifica sorrisos, traz a morte no rosto alvo, tão alvo... mas trazes também a vida, multiplicando dois pães em um número da Broadway. Vens Carlitos, trazes tua bengalinha surrada, teus sapatos compridos e teu colete puído, traze teus filmes perfeitos pra nossa lista. E São Carlitos do Chapéu-Coco, livra-nos de todo filme mal, amém.

 
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