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Diários Cinéfilos
por Rodrigo Fernandes


Star Wars e a Morte do Cinema



Guerra nas Estrelas faz agora em Maio trinta aninhos. A mídia tem comemorado. Li grandes matérias em pelo menos três revistas importantes. Aliás, nada mais justo, a César o que é de César. Eu particularmente acho a data funesta. "Ih, lá vem o chato do Rodrigo de novo!". "Lá vêm o Clodovil da crítica bagunçar o coreto!". Já estou até sentindo o bafo quente do ódio no pé do ouvido, o povo me mandando e-mails irados, espetando bonecos de vodu e botando meu nome dentro da boca do sapo. Calma pessoal, vocês vão entender.

Todo mundo que conhece um tico da história do cinema há de concordar comigo que os anos 70 foram uma espécie de linha de montagem de clássicos. O auge. Uma boa safra de um bom vinho. Grandes filmes e grandes diretores caíam das árvores como amêndoas na primavera. Era difícil acompanhar tanta coisa boa acontecendo ao mesmo tempo. Se no final dos anos sessenta o cinema americano agonizava com filmes chatos, épicos rocambolescos e estúdios indo à falência (o da Paramount, por exemplo, chegou a ser alugado como salão de festas), no começo dos 70 apareceria uma turma meio esquisita. Atores e diretores egocêntricos, amalucados, cabeludos, fãs de rock'n'roll e absolutamente geniais, todos dispostos a mudar a cara do cinema mundial.

Francis Ford Coppola já chegaria chutando o balde: "Nós somos os novos Michelangelos!". Marrento? Muito, mas como desmentir o cidadão que numa mesma década dirige O Poderoso Chefão, O Poderoso Chefão II, A Conversação e Apocalypse Now? Quatro dos grandes filmes de todos os tempos? Martin Scorsese, que só dirigia seus filmes pra lá de Bagdá (o próprio estúdio fornecia cocaína ao sujeito), apareceria com Touro Indomável, Caminhos Violentos e o emblemático Taxi Driver. O hoje esquecido Peter Bogdanovich, que chegou a ser chamado de o novo Orson Wells, fez dois outros filmaços: A Última Sessão de Cinema e Lua de Papel. Robert Altman veio com a supercomédia M.A.S.H.. Terence Malick com o belo Cinzas no Paraíso e o pirado (até hoje) Dennis Hopper abriu a década com Easy Rider - Sem Destino, clássico total, imprescindível para quem quer entender os tão falados anos do desbunde. Por fora corria o azarão Woody Allen criando o gênero comédia-inteligente com Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. O clima de renovação da época era tão poderoso que até diretores veteranos entraram na onda e começaram a soltar seus bichos. Sidney Lumet, já meio coroa na época, mudaria radicalmente de estilo e filmaria duas pérolas selvagens: Um Dia de Cão e Rede de Intrigas. Isso sem falar nos atores, todos os bons, os grandes, os maiores, chegaram aos seus clímax nessa época: De Niro, Pacino, Dustin Hoffman, Brando, Jack Nicholson, Gene Hackman e por aí vai...

* * *

Príncipes da loucura, ases da ousadia, nossa... naquela época se arriscava em Hollywood! Os (que as damas me perdoem a má palavra) bunda-moles ficavam em casa lendo a Playboy, ouvindo Elton John e sonhando com a Jane Fonda, enquanto os alucinados, os rebeldes, revolucionavam a linguagem, as estruturas, os moldes do cinema, abriam caminhos. Era um tempo em que os diretores tinham poder. Como corsários bêbados esse bando de malucos tomaram os estúdios, hastearam suas bandeiras de caveira neles e faziam o que queriam, ninguém dava pitaco em nada. Até um malabarista de sinal de trânsito sabe que nessa nossa época bem comportada não se faz mais filmes como esses aí em cima. Filmes violentos, encharcados de drogas, politicamente incorretos e sobretudo questionadores, filmes que te obrigavam a espanar as teias do cérebro. Filmes como obra de arte. O sumido Willian Friedkin resumiria bem a coisa: "A gente descobriu que os filmes não eram feitos pra pendurar na porra do Louvre, mas para divertir o público". Sim! Esses filmes - densos, barra pesada, inteligentes - também eram populares! O próprio Friedkin quebraria a banca com Operação França e O Exorcista, dois incontestáveis campeões de bilheteria.

* * *

Mas então o que aconteceu com essa gangue, com esse período de revoluções por minuto? Por que o bom-mocismo voltou a tomar conta de Hollywood? Bem, um dos motivos é que os diretores começaram a errar feio, começaram a ir longe demais. Coppola, por exemplo, cismou de fazer o maior filme de guerra já visto, e fez (qual pode contra Apocalypse Now?). Mas quase levou a United Artists à falência. Coisa que Michael Cimino (do espetacular O Franco-Atirador) acabou fazendo com catastrófico O Portal do Paraíso, enquanto Altman literalmente queimava seu filme com o complicado Quinteto, tem gente tentando entender esse filme até hoje. Resumo da ópera, os gênios indomáveis não eram infalíveis e cada erro eram milhões que voavam pela janela dos estúdios.

O outro fator vital para acabar com aquela farra foi o aparecimento de dois nerds que acabariam dando à sétima arte esse formato pop que a gente conhece. Steven Spielberg com Tubarão e principalmente George Lucas com seu Star Wars já chegaram criando o conceito de filme-pipoca. Filmes inofensivos, filmes para toda família e, principalmente, filmes que dão rios de dinheiro. O conceito de blockbuster, de filme-de-verão, vêm daí. A receita preparada por esses dois nerds de faculdade é usada até hoje (O Senhor dos Anéis, Homem-Aranha, Piratas do Caribe...) e salvo rarézimas exceções (como Dogville, Sin City, Babel e alguns outros) não se vê muita ousadia no cinemão norte-americano, não se vê criatividade, não se vê inovação, não se arrisca. E tudo isso começou há exatos trinta anos com Star Wars. Agora atores e diretores são apenas meros empregados, quem decide tudo são os estúdios, os burocratas, o mercado. Basta dizer que o homem mais poderoso do mundo do cinema se chama Jerry Bruckheimer, um... adivinhem... produtor.

* * *

Infelizmente não houve um final feliz para a geração do sexo, drogas e celulóide. Alguns tiraram o pé do acelerador e conseguiram se adaptar aos novos tempos, como Scorcese, De Palma e Woody Allen. Tornaram-se, enfim, senhores conservadores. Mas a maioria foi pro ralo junto com suas liberdades artísticas. Copolla (hoje mais produtor que diretor), Cimino, Friedkin, Malick, Bogdanovich... Esses se tornaram peças de um passado audacioso. Tempo em que nem o céu era o limite. Tempo em que os rebeldes eram reis.

 
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