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por Rodrigo Fernandes


Homem-Aranha, Herói de Polvilho



A sensação é a mesma de se ter comido uma daquelas bolotas ou daquelas roscas de polvilho. Quando você come um treco desses - aquele barulho - o que sobra é só um gostinho salgado de fermento no fundo da garganta. Só. Pois Homem-Aranha 3 é um enorme pacote de biscoitos de polvilho. Você vê aquela coisa toda, trailers estonteantes, pôsteres espalhados pela cidade, uma fila animada (a velhinha que vende ingressos implorando para eles se esgotarem logo), aqueles efeitos especiais, aqueles vilões, aquele barulho, aquela trilha sonora, aquele clímax. E meia hora depois não sobra nada na sua cabeça, você já se esqueceu completamente do filme. Você só se lembra do aviso de desligar os celulares (que, aliás, ninguém respeita) e depois dos créditos finais.

Tá certo que o escapismo é necessário. Sou totalmente a favor dar uma folga à realidade de vez em quando, faz parte. Mas vamos se alienar em grande estilo!

Primeiro, eu nunca vi herói de computação gráfica tão mal feito. Pelo amor de Deus, até um cágado cego percebe que aquilo ali não existe, é falso, pateticamente falso. Sinceramente, os jogos do saudoso Atari (isso não é da época de vocês) eram mais reais que aquilo ali. E as cenas das lutas? Tão rocambolescas, tão aceleradas que você não consegue entender nada, se o sujeito sofre de labirintite é sair do cinema direto pro pronto-socorro. Me pergunto por que os filmes de hoje têm de ser assim, tão confusos, tão frenéticos, tão barulhentos. Será que é para não dar tempo do cérebro perceber que aquilo ali é uma porcaria?

Outra coisinha, para que três vilões? Unzinho só já tava de bom tamanho? Mas não, eles querem vender bonecos, eles querem vender mochilas, games e álbuns de figurinhas. E toma-lhe vilões, e toma-lhe um caminhão de personagens e subtramas que não dizem nada. Sobre as atuações, eu, ator de formação Shakespereana, não vou nem comentar, ou melhor vou sim, são trágicas, todas. Todo mundo ligado no piloto automático. Tobey Maguire aliás parece que se aposentou no cargo de Peter Parker, afinal, o que o atorzinho tem feito além disso? Aliás, a transformação do Parker bom em Parker malvado é uma das coisas mais broxantes da história do cinema. Se o Parker bom é uma besta, o mau parece mais um guitarrista de banda emocore. Não, não sei bem o que significa o termo. Não saco bem essas modernidades, nasci nos anos 70. Mas sei que os tais emos são um povinho bem esquisito.

* * *

E que final é aquele, meus amigos? Que finalzinho água-com-açúcar... Parece coisa de novela mexicana, essas que passam duas horas da tarde no SBT e que sua tia varizenta adora assistir enquanto tira um ronco pós-almoço no sofá da sala. Mas o que se podia esperar? Polvilho tem gosto de... bem... de polvilho.

* * *

A Vanessa Monteiro de... de... bem, de algum lugar (e-mails não trazem endereços, preferia as boas e velhas cartas, escrever era romântico nessa época) escreveu puxando minha orelha, reclamando que eu só tenho falado de filmes ruins. Concordo com ela. Embora eu sempre vá ver um filme esperando que ele seja bom, afinal para que enfrentar a dispendiosa e arriscada aventura de ir a um cinema para ver algo ruim? Mas ela está certa, vou procurar sempre que possível falar de alguns filmes bacanas. Esta semana vi um chamado Valentin, produção argentina de 2004 e vencedora de uma penca de prêmios mudaréu afora. O filme conta a história do menino Valentin (atuação estupenda de Rodrigo Noya) e a sua relação com a família (conturbadérrima), com a nova namorada do pai e com um vizinho pianista & doidão. Doce, simples, emocionante, comovente. Humano. É filme para quem aprecia cinema de verdade, pra aqueles que gostam que o filme permaneça no espírito, vire parte do seu arquivo permanente de boas referências. Taí a dica. Não sei se você vai encontrar na sua locadora favorita, mas vale a pena a busca, é antídoto certo para esse cinema frio, cibernético, computadorizado de hoje em dia. Valentin, imperdível.

* * *

Na crônica passada falei que vossa santidade Bento XVI era a cara do Chuck, o brinquedo assassino. Pois aqui, perante a nação cinéfila, me redimo. O Papa - como ficou bem claro em sua visita aqui por essas terras guaranis - é uma simpatia, um doce de pessoa. O sumo pontífice é sem dúvida um péssimo ator, de um Burt Reynolds pra baixo, mas é um Papa bacana, dos melhores. Não sei onde estava com a cabeça quando fiz tão esdrúxula comparação qual agora me redimo contrito. Até porque não quero passar minha vida post-mortem queimando no mármore do inferno, onde, segundo dizem (dizem, eu não digo nada), você é obrigado a assistir ad infinitum sessão dupla com filmes do Chuck Norris e Steven Segal (dublados pelo SBT). Deus me livre. Ben-to, Ben-to!!! Papa-eu-te-a-mo!!!!

 
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