Estado: Crítico
Essa semana reencontrando, infelizmente, um conhecido, ouvi a seguinte gracinha: "Aí, tô sabendo que você tá escrevendo críticas de cinema. Que sopa, hein? Um dia ainda entro nessa bocada". Essa gente anda mal informada. Inveja, cobiça, e-mails ameaçadores, amigos cortando relação, a namorada comentando como o "ex" está bem sucedido na vida, sua mãe salgando o feijão, todos se tornando inimigos em potencial, do malabarista do sinal àquele seu médico de confiança... Não, vocês não sabem. Sequer têm idéia de como é dura e ingrata essa vida de crítico de cinema. O povo em geral, em seu santo desconhecimento ("ignorância" é uma palavra muito forte, longe de mim magoar alguém, hoje em dia tudo dá processo) acha que a coisa é mole. É sentar na poltrona do cinema, assistir o filme comendo uma pipoquinha murcha e depois digitar meia dúzia de palavras. Vidão. Quem me dera, meus amigos, quem me dera...
O crítico é antes de tudo um ser atormentado. Vou dar um exemplo e todo mundo vai entender. Por esses dias fui ver A Estranha Perfeita, não havia do que reclamar; uma noite agradável, ótima companhia, cinema em promoção, pouca gente na fila, coisas raras, raríssimas, que só acontecem uma vez na vida, e olhe lá. O filme também prometia. Bruce Willis e Halle Berry no elenco, críticas razoáveis, boas referências. "Que sonho bom, pensei" e só acordei quando perdi a coroa do dente mordendo um tarugo de bacon. Na verdade saí do sonho e caí em um pesadelo medonho porque todo mundo gostou do filme, menos eu. Me senti um bicho acuado, a última ararinha azul do pantanal. Podia ouvir o pessoal rindo nas horas certas, xingando o vilão nas horas certas e depois se surpreendendo com o final. Eu achando aquilo tudo maçante, repetitivo, enfim, o maior mais do mesmo de todos os tempos. Ser crítico é isso, é nadar o tempo todo contra a maré num rio infestado de piranhas, que não são aquelas da praça Mauá, essas só mordem quando você pede. É colocar a dúvida na cabeça dos outros, é não aceitar tudo de graça, é ser chato, muito chato (antigamente se falava que o chato era um sujeito "cacete", hoje não sei se cairia bem, essa coluna também é lida por moças belas e virgens de 16 a 19 anos, tá na estatística). Se Gregor Samsa, personagem de Kafka em A Metamorfose, vira um inseto, para ser crítico não tem jeito, você tem que virar um chato, que aliás, fique bem claro, não é o inseto. Esse bicho desagradável que freqüenta um lugar mais desagradável ainda.
O crítico não se satisfaz com as belas curvas da Halle Berry, por isso vive pondo em risco sua reputação. Não só a sua reputação mas sua sanidade, correndo o perigo de ser mandado para o acolhedor Juliano Moreira, uma aconchegante e bucólica casa de loucos aqui do Rio, que nos bons tempos costumava acordar seus hóspedes com safanões e choques elétricos. E tudo isso para mostrar ao público a verdade que cada filme esconde por trás de belos trailers, pôsteres maneiros, mulheres gostosas e propagandas mentirosas. E esse esforço é recompensado? Claro que não! Todo mundo detesta crítico. Pode ver no calendário, têm dia pra todas as profissões, dia do Trabalhador preso (5 de maio), do Desfiador de siri (1 de agosto) e até dia do Caminhoneiro desconhecido (25 de julho) - profissões honradas, encantadoras, da maior utilidade, é só exemplo - menos dia pro crítico de cinema. Mas a vida é assim mesmo. Nenhum crítico é profeta em sua própria terra. Tá na Bíblia.
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Não tenho números, nem gráficos, nem estatísticas mas tenho certeza que o sistema de distribuição de filmes do Brasil é o pior do mundo. Como um monte de coisas por aqui, só deve ficar atrás do Gabão Equatorial. Passei em frente ao cinema e estava rolando a pré-estréia de Cafundó, filme com Lázaro Ramos e dirigido por Paulo Betti. Pois esse mesmo filme está disponível nas boas locadoras há mais de um mês. E não são cópias piratas. Depois é o crítico aqui que tem pinimba com o cinema nacional...
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Hugh Jackman é a bola da vez. O rapaz está jogando nas onze, dos X-Men a filmes de Woody Allen. Nas locadoras acaba de chegar dois DVD's com o galã australiano. Fonte da Vida, belo filme, plasticamente perfeito, mas de uma confusão diabólica, doideira total, pra se ver bebericando chá de cogumelo e O Grande Truque, esse sim um filmaço, na acepção mais genuína do termo. Quem como eu papou mosca e não viu no cinema recomendo sem ressalvas. A história de dois ilusionistas (Hugh Jackman e Christian Bale, ou seja, Wolverine e Batman) que vivem querendo roubar os truques do outro é contada em flashbacks e surpreende o tempo todo até o final, não menos acachapante. É bacana perceber que apesar do clima de duelo não há no filme mocinhos ou bandidos, ambos ilusionistas são absurdamente amorais, salafrários, picaretas e passam por cima de tudo e de todos para descobrir os segredos do "grande truque" do outro. Se Jackman não decepciona, Bale, grande ator desde molecote de calça curta, dá show. E ainda temos a bonitinha Scarlett Johansson e Michael Caine, o essencial mediano de sempre. O Grande Truque (atenção nos figurinos e na fotografia retrô), dirigido pelo competente Christopher Nolan, é filme espetáculo, divertimento de categoria, uma locação que vale cada centavo. De fato um grande filme, e nem o mais ranheta dos críticos pode negar isso.
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Vivem dizendo que os críticos são artistas frustrados, mentira. Todo mundo sabe que os artistas é que são críticos frustrados. Tenho dito. O resto é perfumaria.