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por Rodrigo Fernandes


O Samba da Desilusão



Desilusão, Desilusão... Fosse eu um sambista de fato cantaria afinado, igualzinho Paulinho da Viola. Aí sim esta crônica teria uma trilha sonora à altura de meus seletos e exigentes leitores. Mas, como sou conhecido no circuito Bangu - Vila Valqueire de videokês como o "Emilio Santiago com Faringite", melhor deixar pra lá, a crônica vai sem samba mesmo.

Cartola - Música para os Olhos tinha tudo para ser um senhor documentário. Elementos trágicos e míticos não faltaram na vida do célebre sambista da Mangueira e grandes histórias são feitas disso aí mesmo, miséria e glória. Mas, ao invés de aproveitar esse material biográfico de primeira, me saem com essa presepada sem tamanho, sinceramente, Cartola é, literalmente, um samba-do-crioulo-doido. Um monte de imagens sem conexão, sem fio narrativo, sem cronologia, embaralhadas como as bolinhas do bingo que mete a mão na aposentadoria da minha tia, enfim, Cartola não tem nada do que geralmente pede um documentário. O que devia explicar só confunde. Lírio Ferreira, diretor da coisa (e curiosamente autor dos bons Baile Perfumado e Árido Movie), cismou de ser experimental justamente onde não devia. Cartola, e até um idiota como eu sabe disso, é sinônimo de tradição, não combina com essas modernidades fragmentosas. Mas não, o pernambucano - cineasta pernambucano são todos avant-garde, repara só - fez um balaio de gatos dos diabos e seu documentário pode contar tudo, menos a história do sambista. Num sambão das antigas Carlos Cachaça já cantava que "o samba não é de arruaça", Lírio Ferreira devia saber disso. O bom e velho nariz-de-bronze da Mangueira não merecia esse presente de grego.

Agora, não satisfeito em acabar com um dos mestres do samba, o cineasta vai mirar sua metralhadora enferrujada para Humberto Teixeira, autor de Asa Branca e grande parceiro de Luiz Gonzaga. Espero que os fãs do bom e velho baião estejam afiando suas peixeiras.

* * *

Não fui ver 300. Podem me mandar e-mails - respondo todos - esculachantes, mas como meus fiéis leitores estão calvos de saber (falar "careca", descobri essa semana, é coisa de mal educado, pessoas se ofendem) tenho um alto senso de responsabilidade social, gosto de ajudar a locadora aqui perto de casa (R$ 7 a locação) e se eu for ver no cinema todo filme que entra em cartaz corre-se o risco do dono da locadora ter que trocar sua Toyota Hilux Super Turbo por um modelo mais popular. Deus o livre. É pra frente que se anda. Mas falando no longa... a coisa toda parece bacana, bem filmada, tem uma cara boa, não é fraco não, mas acho que há um tiquinho de exagero quando se fala da participação de nosso patrício no filme. É sempre bacana ver um conterrâneo fazendo rapel no letreiro hollywoodiano e Santoro, é bom dizer, além de humildade e talento tem coragem. Não é mole aparecer pro mundo inteiro como uma drag queen sem maquiagem ou um dos dançarinos bombados da Galeria Alaska, quem é daqui do Rio e conhece esses antros de perdição, esses castelos do conde Drácula, sabe do que estou falando, nada contra, tem gente que gosta. Rodrigão, mesmo aumentado no photoshop e tendo sua voz dublada por computador, fez bonito, inegável. Mas nada que justifique a histeria. Não exagero, além de milhões de capas de revista já vi anúncios vendendo 300 como o filme de Rodrigo Santoro. Povo varonil, take it easy. Rodrigo - e esse é o destino do seu nobre nome - vai ser nosso homem em Hollywood, isso é inevitável, questão de pouquíssimo tempo, mas sua participação, seu status, ainda é de coadjuvante. Não botemos a carroça na frente dos bois, senão, como diz um verso do grande partideiro Almir Guineto, "o carro tomba e o boi fica no lugar".

* * *

23 é um filme esquisito pra chuchu, como diria Zeca Pagodinho, é ruim, mas é bom. É bom porque o roteiro é surpreendente, é enigma, é suspenso no ar, uma grande idéia e revelar qualquer coisa seria sacanagem. É bom porque traz Jim Carrey num papel sério, pra mim o que ele faz de melhor. Careta por careta, palhaço por palhaço eu fico me olhando no espelho. Mas quando Carrey decide fazer um papel à vera aí o sujeito arrepia (mais detalhes em O Mundo de Andy ou Cine Majestic). É ruim porque quem comanda a coisa toda é o famigerado Joel Schumacher. Pra quem não está ligando o nome à figura Joel foi o diretor que cometeu Batman & Robin (cenografado por Joãozinho Trinta e participação especial da Beija-Flor de Nilópolis), aquela coisa... melhor nem ficar falando o nome desses filmes que atrai. Ok, ok, Schumacher - ex-figurinista dos filmes do Woody Allen - chegou a dirigir filmes bacanas como Linha Mortal, Os Garotos Perdidos, Um Dia de Fúria... mas isso foi no milênio passado. Exagerado como sempre, Joel emperra o filme querendo fazer um suspense com estilo, com arroubos de estética, visual demais, deixando pra trás o que a produção tem de melhor que é a originalidade do texto. Não sei se o longa vale uma visita ao cinema, talvez não, mas o negócio é contigo mesmo. Afinal, já profetizava o saudoso mestre Bezerra da Silva; malandro é malandro, mané é mané. Diz aí pra marcar.

 
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