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por Rodrigo Fernandes


Tomando no Ralo



Se assisti a O Cheiro do Ralo? É claro que assisti O Cheiro do Ralo! Grandessíssimo filme. Olha, tempo que não via por essas plagas filme tão surpreendente, tão bem sacado, tão bem interpretado, tão original. Tempo que não se via uma produção bacana e que não se passasse nas ermas e tórridas macegas nordestinas (sem ofensas irmãos sertanejos, raça forte, mas aí em riba é esquisito pra burro, não dá pra negar). Aliás, não sei por que cineasta brasileiro gosta tanto do nordeste, ou melhor, do sertão, aquele nordeste entregue a cactos e a políticos corruptos, esse povo de cinema tem síndrome de Ariano Suassuna. Dizem que se trata de "mostrar a realidade" do país, tá certo, tá certo, causa deveras nobre, mas segundo o IBGE a maioria do povo brasileiro vive hoje no meio urbano, tanto que quando dizem que Bangu (Éden, Terra Prometida, Pindorama onde moro, moro não, vicejo) pertence à região rural do Rio eu fico um tantinho P da vida. Aqui o que era mato e pasto já virou favela há muito tempo, ó, o dedo nem estala mais. Essa gente não sabe é de nada.

O Cheiro do Ralo quebra a tradição, é urbano, prédio, concreto, bem cidade grande, é bem São Paulo, na verdade podia ser Nova York, Tókio, Berlim, mas é São Paulo mesmo. São Paulo, até um malabarista de sinal sabe, é na verdade um ralo gigante e basta um chuvisco e o ralo entorna, implode (perdões trabalhadores Paulistas, dínamo nacional, povo que gosta de pegar num pesado, mas todo mundo conhece a fama do Tietê). Porém a grande sacada da produção é que por mais insano que o filme seja a gente se identifica com ele. Quem não tem um ralo entupido e fedorento - real ou metafísico - na vida? Quem não tem suas tarinhas inconfessáveis e suas manias bizarras? Quem não está sempre atrás de uma bunda bonita?

* * *

Pois é, o filme tem mesmo méritos. Selton Mello entrega um personagem inteiro e maravilhosamente desagradável, só confirma o que todo mundo já sabe, é o melhor ator em ação no país. A direção de Heitor Dhalia é precisa e o roteiro do ferão Marçal de Aquino soube tirar puro suco do livro de Lourenço Mutarelli, e (como podia me esquecer...) temos ainda Paula Braun. O que falta em talento na moça lhe sobra em bunda, o que de fato importa nesse país cristão.

Mas o cinema nacional, assim como o universo precisa de equilíbrio, Yin, Yang, claro, escuro, bem e mal... esses papos de equivalência. Pois se O Cheiro do Ralo abusa de ser bacana Ó Paí, Ó é desgraçadamente ruim (que os sempre lúdicos e simpáticos baianos me desculpem, nada pessoal. Até porque, todo mundo sabe, tenho origens aí. Meu pretenso - não se tem certeza - tataravô era meio-baiano). O que se pretendia um musical-étnico-humorístico virou uma comédia chinfrim, sem graça, ordinária, um videoclipe do Araketu rodado com baixo orçamento. Propaganda pra gringo ver, e a gente sabe que as coisas não são bem assim. O povo baiano não é aquela palhaçada carnavalesca toda, pelo menos não a maioria. Lázaro Ramos, cada vez mais caricato, está mesmo convencido da missão divina de acabar com a própria carreira e... bem... chamar Wagner Moura de esforçado é um elogio generoso. Ó Paí, Ó é de desarranjar os estômagos mais fortes, cai pior que um vatapá com salmonela. Aff!

* * *

Conheço Seu Adilo há séculos. Vende livros usados aqui na feira de domingo, comprei com ele minha primeira revista de sacanag... meu primeiro gibi da turma da Mônica. Sujeito bacana, gente fina, apesar de não ter colocado a filha na minha fita, insensibilidade que já perdoei. Seu Adilo (também conhecido na feira como Dilo, Adílio, Titilio, Ardilho, Otillio e variáveis. Pra quem não sabe o feirante tem um dialeto próprio e riquíssimo, é fascinante), sabedouro que nada faço na vida a não ser ver filmes, está sempre me pedindo dicas dos lançamentos cinematográficos, o que chega nas locadoras e etc. Distinção que me orgulha muitíssimo. Mas Seu Adilo e sua esposa , Dona Silvia, essa simpatia, só assistem comédias. Só comédias. Nada de filmes cabeça, neo-realistas, ficção-científica, romance, aventura, nada... só comédias. Outro dia, curiosidade inútil - essa coisa que tenho e não consigo controlar - fiz questão de saber o porquê de tão rígido radicalismo.

_ Só comédia, Seu Adilo? Nem um filminho de ação?

_ Ação! Não, não, não rola, de jeito nenhum. Olha aqui o jornal, a realidade tá tão braba que até aquele filme de ação mais mentiroso perdeu a graça. Vejo filme de ação todo dia onde moro.

Indiquei uma comédia. Sem argumentos. Têm coisas que não tem como discutir.

 
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