Cinema, Vaselina da Vida
Tenho só a agradecer ao povo cinéfilo. Sabendo do meu mau estado estes não mediram esforços e, assim sendo, recebi milhares e milhares de e-mails solidários com a minha dor. Portanto me vejo obrigado a lhes informar que minha canela (esquerda) vai se recuperando bem, plenamente, quase lá. Agradeço também as orações. Vocês são demais. Futebol nunca mais! Só daqui a quinze dias (ordens médicas).
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Nesses dias em que, praticamente inutilizado, farrapo humano, recusado pelo caminhão do lixo, me restabelecia da terrível e criminosa contusão, dei a filosofar - às vezes (raríssimas vezes) eu faço isso, não da maneira que os mais depravados estão pensando - mas dei. Matutei séria e longamente sobre a utilidade da sétima arte pra humanidade. Pensei, pensei e cheguei a extraordinária conclusão que o Cinema, assim como o teatro, a música, a pintura e essas outras artes não serve para absolutamente nada. Nulo. Linha. Traço.
Muito pelo contrário, o cinema só traz prejuízo às nações. Veja a Índia, este irmão asiático, maior fábrica de filmes do mundo (mais de mil por ano) e aquele miserê de dar gosto. O Brasil, o Brasil... Por acaso melhoramos com a tal da Retomada do Cinema Nacional? A corrupção diminuiu? A saúde melhorou? Teu filho, aquele cretino, parou de matar aula? E sua filha, por acaso tirou da cabeça a idéia de ir se amancebar com aquele sujeitinho tatuado e vagabundo? Duvido. O nome já diz tudo. Retomada. Re - tomada. Tomamos de novo.
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Fosse o Brasil um país sério, de pesquisas idôneas e imanipuláveis, teríamos na ponta do lápis o número de adolescentes ingênuas e puras que perderam a virgindade, contraíram bucho ou pegaram doença braba (sendo a popular "boqueira" a mais comum) no sórdido e aliciante Escurinho do Cinema, ou do próprio Escurinho do Cinema. Tanto faz. Dá no mesmo, ou melhor, deu pro mesmo.
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E qual vendedor de mariola não sabe dos desastres, das desgraças? Dos jovens, antes pacatos, que se tornaram autênticos selvagens assistindo a película roqueira Ao Balanço das Horas nos anos 50? Que não satisfeitos em destruir as salas de projeção tacaram fogo e pilharam cidades inteiras numa sem precedente onda de barbárie gratuita? E as mulheres, impressionáveis, que abortaram assistindo o terrível O Exorcista? Ou qual desmemoriado não se lembra dos prejuízos megalíticos sofridos pelos donos de quiosques praianos ao redor do mundo - de Paquetá a Malibu Beach - quando Spielberg, esse delinqüente, lançou Tubarão e todo mundo ficou com uma neura danada de ir à praia? Dessas coisas ninguém lembra, ninguém fala.
Meu bairro, por exemplo. Não existe nesse Rio de Janeiro de São Sebastião bairro mais próspero e encantador que o meu, deixemos de falsas modéstias. Afinal, com certeza vocês já ouviram falar de Bangu. Pois digo que essa exuberância sem limites só é possível porque (graças a Deus e à Igreja Universal, amém) não há mais um cineminha por essas bandas. Acabaram com o Poeira e com o Cine Matilde e o bairro imediatamente se abriu em flores como um girassol do progresso. Agora querem construir um shopping aqui. Com não sei quantas salas, telão não sei o quê, som super-hi-fi-stéreo-double-surround e os cambaus. Sou contra. Já estou começando a recolher as assinaturas (nesse país abaixo-assinado resolve tudo). Onde já se viu? Esse pessoal gosta mesmo de andar pra trás...
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Pois, pensando nessas coisas, estava eu redigindo decidido minha carta de demissão ao ilustre Adorocinema (sei que lutariam aguerridamente por minha permanência, provavelmente tentariam me comprar com dólares, o que, sendo eu rapaz de princípios, aceitaria) quando chega meu amigo Poca-Ropa pra me fazer uma visita. Saber como eu ia, se minha perna havia sido amputada, essas amenidades. Por inclemências do destino Poca, antes um homem de bem, cidadão dos mais respeitados, havia virado mendigo, coisa normal, sujeito a acontecer com qualquer um. Vivendo debaixo de uma ponte na Avenida Brasil, dizem que para suprir suas necessidades nutricionais, vitaminas e sais-minerais Poca-Ropa cozinhava cachorros em um latão de 20, mas isso aí é intriga da minha tia, que gosta mesmo de falar mal dos outros. Hoje Poca-Ropa é de novo um cidadão, com uma (leve) insanidade mental, mas um cidadão, comerciante próspero. Foi acolhido por uns rapazes caridosos e hoje trabalha vendendo mantimentos básicos pra eles; açúcar, orégano, farinha... essas coisas que vendem como água. Pois sabedouro da minha aflição meu amigo vaticinou, do alto de sua sabedoria de ex-mendigo devorador de cachorro (quem em sã consciência vai ignorar um conselho de um iluminado, de um visionário, de um homem lúcido desses?):
_ Deixa disso, Rodrigo. Cinema é bom. Cinema é coisa de Deus. O cinema é a vaselina da vida. Faz tudo deslizar mais gostoso.
Bastou. Semana que vem tamos aí.